Numa manhã qualquer de uma sexta-feira deste verão, daquelas em que as pessoas sorteiam as agendas marcadas para atender porque são inviáveis tantos compromissos num horário só, decidi priorizar o passado. Enrolada até a raiz do último cabelo não branco com as providências de uma papelada para uma nova e desafiadora empreitada que devo assumir, saí cedo de casa para exames e cópias de documentos, atestados, fotos em 10 minutos e estas coisas burocráticas. Tudo acelerado. Com caráter de urgência. Deveria estar pronta, às 10h, para ver o colega de Editoria de Economia de Zero Hora (ZH) que não encontrava há tempo.
Na mesa principal do evento. Tratado como professor. Anunciado como especialista no assunto. Com livros e livros publicados. Com todas as formalidades que a solenidade exigia. Lá estava ele. Falando para uma platéia formada por heterogêneos interesses. Discorrendo sobre um tema no qual se tornou conhecedor exímio. Engravatado. De óculos. Fala suave. Mesma aparência, mesma educação e gentileza que sempre lhe acompanharam. Exatamente como conheci, em 1987, quando tive a honra de ser sua colega na Editoria de Economia de ZH.
No intervalo, foi chamado pela reportagem na entrada do evento para as entrevistas de praxe. Atendeu com delicadeza. Sem pressa. Gravou quantas vezes a equipe de televisão solicitou. E, depois que ele atendeu à imprensa (e só quem é da imprensa respeita a própria), fui conversar com ele. No início, não reconheceu, mas assim que eu falei a primeira palavra (será porque o meu r é puxado?), disse o meu nome e começamos um assunto trivial, intercalado de lembranças não ditas do passado. Os plantões de domingo, os filmes preferidos, as brincadeiras com os nomes dos entrevistados.
Depois, cada um seguiu seu rumo. Ele, feliz, ao saber que eu estava na platéia apenas para ouvi-lo, mesmo que o assunto não tivesse nada a ver comigo. Eu, confortada, com o reencontro de ex-colegas. E satisfeita em ver o sucesso do ex-repórter de Economia, um dos melhores que ZH já conheceu. Como não pedi autorização para citar o seu nome, omito sua identidade. Não vou expô-lo mais.
Pensei sozinha com meus inúmeros botões, que alguns daquela antiga turma poderiam ter organizado um almoço, um happy, um café. Algo menos formal. Mas, calei-me ante a possibilidade de que o tal encontro possa ter ocorrido, sem que eu fosse chamada. E também me silenciei perante a eterna falta de tempo de todos para tudo nesta vida. Sei lá. E, no final, culpei-me por não ter promovido o encontro.
Apesar destas dúvidas, terminei a sexta-feira extremamente feliz. Com a consciência no lugar exato. Com a satisfação de quem reencontrou um colega. E, com a certeza ainda mais cimentada de que amigo é coisa prá se guardar. Sempre.

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