Se Você é um dos meus nove contumazes leitores, sabe que passei boa parte do meu período de estudante no Colégio Farroupilha, de Porto Alegre. Foram onze anos.
Uma das melhores coisas que havia lá era o “campão”, o melhor campo de futebol de escola de Porto Alegre, sonho de consumo dos alunos de outras escolas… Os caras do Anchieta, então… Babavam… O deles era puro areião, não cortava a pele, ralava.
O que eles não sabiam era uma regra estabelecida pela Direção, que nós respeitávamos e não contávamos para eles, para manter a aura: em competições não oficiais era proibido o uso de chuteiras.
Com chuteiras ou não, tenho as melhores recordações daquele gramado… Ali craques e pernas-de-pau sentiam-se como os melhores da época. Éramos Figueroa, Falcão, Carpegiani, Zequinha, Anchieta, Jair, Escurinho; tínhamos a onipotência decorrente da adolescência. O que faz um monte de hormônios…
Jogavam o Hélio Coveiro, o China, o Betinho, o Renato Nego, o Pingo, o Cocão, o Cascão, quanta saudade, e o Giba, que era craque mesmo, tanto que acabou jogando em Portugal.
A gente jogava bola e freqüentava as festas. Não perdíamos as de 15 anos, se uns eram convidados, outros furavam.
O China era um cara interessante. Era filho de pai e mãe chineses, nunca soube onde nascera. Era companheiro de futebol, das festinhas e de sala de aula. Grande “faixa”, estava sempre sorrindo, um agregador.
Seu sucesso com as meninas era inversamente proporcional ao seu esforço. Atirava em todas, lutava bravamente… Não se “arrumava” nunca. Certa feita, o China superou-se… Resolveu “atirar pedras” – antigo, não? – numa deusa, daquelas maravilhosas – ela foi miss, anos depois. E numa época de cara limpa, sem retoques nem silicone.
O convite foi para um jantar no Convés, um dos restaurantes mais caros da Porto Alegre na época, ficava em cima do Dosul da Protásio, lembra? Na frente do Israelita.
O China batalhou como nunca, fracassou, como era previsível, como sempre. A tragédia, no entanto, completou-se na hora da conta. Sem cartões de crédito ou cheques, nosso amigo mandarim recebeu uma conta de valor significativamente maior do que tinha no bolso, ainda que somado com o que viria a ter nos próximos três meses, se dependesse de suas mesadas.
Até hoje não se sabe a solução que foi dada. Infere-se que o Sr. Wo, pai do China, compareceu no dia seguinte ao local, para resolver o imbróglio.
O que toda a turma do futebol sabia na manhã seguinte era o restante da história: a tentativa, o fracasso, a conta alta, tudo… Com detalhes.
No calor do desespero, o China teria implorado à pretendida: “Qual é, pô! Põe dez aí…”.
Foi o regozijo da turma. Bastava mencionar a expressão “qual é, pô!” para transformar um pacífico chinês numa fera de difícil controle.
Lembrei desta história nesta semana quando soube que a companheirada do Lula foi mais uma vez pega com a boca na botija. Mais uma vez, apareceram dólares e reais vivos. Coisa pouca… Um milhão e setecentos mil.
No epicentro do novo escândalo, os amigos de churrasco e futebol do Presidente da República que, como de praxe, nada sabia.
Como nós éramos informados naquele final dos anos 70!

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial