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Amigos e colegas

Nesta quinta-feira, estive no Memorial RS para o lançamento da revista do JÁ Editores e, na entrada, encontrei um colega que me disse: “Aí …

Nesta quinta-feira, estive no Memorial RS para o lançamento da revista do JÁ Editores e, na entrada, encontrei um colega que me disse: “Aí dentro parece reunião do DCE da Ufrgs nos anos 70”. Entrei. Lotado. De fato, vi muita gente daqueles idos, gente que não via literalmente há uma década. Não tive como deixar de rir lembrando a piadinha do colega, à entrada. De fato, muitos dos que ali estavam são meus contemporâneos de universidade, de uma época em que a LiBeLu (Liberdade e Luta, para quem não sabe ou não lembra) era o máximo, em que se tocava “Você Abusou” ao violão, na sala do café da Fabico, em que amigos desapareciam das salas de aula sem deixar rastro e em que a desconfiança vicejava triste em meio às relações diárias. Tempos de Médici, de medo, de expectativa.

Vendo o Elmar Bones, entusiasmado, exibir as capas do seu JÁ e comentar as matérias, me dei conta que o tempo passa para uns e não para outros. Tem muita gente cristalizada numa época que se extinguiu. Não faço julgamento se isso é bom ou ruim. Só constato. Começando pelo jeito de vestir, pela inserção que mostram mesmo no grupo.

Ao mesmo tempo, me deparei com ex-estagiários de tempos em que eu exercia algum cargo de chefia em alguma redação, meninas e meninos já não tão mocinhos, hoje envolvidos em sua vida profissional real, enfrentando seus problemas e desafios. Tenho a alegria e a honra de ter espalhado uma relação muito boa com aqueles com quem já trabalhei, tanto na condição de comandada quanto na de chefe. Rusgas, lógico, existiram e posso dizer que, no jornalismo diário, são poucas e inexpressivas, ao contrário de minha  experiência de 3 anos e meio no setor estatal, como coordenadora de assessoria de comunicação, em que tive, com apenas um mês de gestão, de tomar medidas extremas que me custaram ódio e tentativa até de incriminação, como se pedir para trabalhar em casa por ganhar pouco ou ficar apenas três horas na assessoria por ter outro emprego fosse coisa normal e eu tivesse obrigação de aceitar, como outros chefes haviam aceitado. Enfim, preço a pagar pela coerência.

Mas estava falando de coisas boas, não de coisas aborrecidas. E nesta quinta, no Memorial, passei por estes momentos de gratificação (palavra banal, mas que se aplica agora) por  ver que meu trabalho e minha conduta me conduziram a finais felizes. Além dos ex-estagiários que lá estavam me carinhando, encontrei o pai de outra, que me disse: “Foste a única chefe com quem minha filha não brigou e que até hoje adora”.

Fiquei inchada de faceira. Porque acredito que ser profissional, nesta nossa função metida a charmosa e cheia de meandros, não é só ser o maior no texto, na edição, na pauta, na coordenação. Ou ganhar uma baita grana. Em comunicação, importa muito mais saber se comunicar, embora isso pareça frase feita. Apesar dos tropeços, das decepões, das frustrações, acho que consegui chegar lá. Talvez perto disso.

Tô me pavoneando? Com certeza! Colegas se faz aos montes. Amigos, gente que nos quer bem, é difícil. E lembro, aqui, que a primeira vez que fui demitida foi na Folha da Manhã, onde eu era da central de textos, chefiada pelo Carlos Urbim. O diretor de redação era o Ruy Ostermann e o Vieira, seu braço direito. Depois de uma reunião de avaliação dos funcionários, quando o Ruy voltava de sua viagem à Copa da Alemanha, alguns foram apontados como não-adequados ao estilo e à política do jornal e mandados embora. Eu estava no bolo. Lembro do Urbim, que me havia levado para lá, chorando (sempre foi emotivo) na sacada do prédio do Correio, por ter de me dar a notícia. Inexperiente, ainda voltei à máquina de escrever para terminar um texto, até que o João Souza (que revi na quinta), me botou a mão no ombro e disse: guriazinha, vai embora, tu foste demitida. Na semana seguinte, constrangida da silva, lá estava eu, na redação da Folhinha, para pagar minha mensalidade ao Coojornal, diretamente ao Vieira, que era, acho, seu diretor.

Passei algum tempo bicuda com todos. Depois, nas idas e vindas da vida, tudo virou lembrança. Hoje, ao abrir meu mail, encontrei uma mensagem sobre outro personagem desta época, meu querido Paulinho Franken, que está precisando, desesperadamente, de um fígado para seguir vivendo. Misturo tudo isso no balaio das recordações, em que tem do bom e do ruim, e peço a Deus que ajude o Paulinho a sair dessa. Quanto mais não seja, pelo bem da fotografia, que ele tanto enobrece.

Autor

Maristela Bairros

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