Quando eu supunha que – afinal – iria resignar-me com os 76, os 77 arrombaram a porta.
Não há mais aquela segurança dos trinta, ou quarenta.
Ainda não chegara aos quarenta e adotara Eloí, um futuro engenheiro agrônomo que se deu ao luxo de ser professor de economia e profissional de marketing, com uma banda política ativa.
Eloí, pai da Lara Almeida, casado com a Bia, é família-alegria, minha asa que ficou no Rio Grande.
Meses depois de hospedar os 47, chega Rachel, a filha, futura jornalista voltada para a cultura humanística e para as artes.
Rachel me iluminou os caminhos da alma feminina.
Meses antes dos 49, surge a Carla para equilibrar a cultura familiar, futura jornalista com master em Londres de “Divulgação Científica”, temperamento precoce (mãe aos vinte e parceira aos vinte e cinco na autoria do livro “Cordel e Ciência – A Ciência
Carla é energia e carinho despudorados.
Comemorei com Drummond – na idade na qual eu ganhei filhas, ele cantou em “Campo de Flores” – um novo amor, igual ao que a Aurea também me deu:
Deus me deu um amor no tempo de madureza, quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
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E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Meses atrás liguei para a neta – Júlia, sete:
-Peraí, vô… Estava ensinando o Felipe a escrever Jujureba (e-mail e site dela) no computador.
– E quem é Felipe?
– Sobrinho do Bê.
– Que idade ele tem?
– Três anos.
Júlia desmentiu minha descrença em também ser avô.
Pois é, esse negócio de ficar todo ano trocando de anos cria a pergunta:
– Mas o que é que eu ainda estou fazendo aqui?
Responde o debochado:
– Gozando essa esculhambação chamada Brasil, agora sem ditaduras, mas a polícia matando inocente, juízes mandando soltar ladrões ricos e – gozação maior – Maluf deputado!
Acusa o patriota:
– Você virou um morfético cívico.
O eu realista:
– Dizem que sou debochado, debochada é a realidade.
Explica o hedonista:
– Tô aqui gozando a vida com os familiares e uma legião de grandes amigos.
Não é que a antiga turbulência “dos verdes mares bravios” foi se acalmando e ganhou uma cara angélica, mais ou menos como a cara de quem ainda está com a hóstia na boca?
A vontade é de ficar ouvindo “Lagoa Adormecida” (Sleep Lagoon), com Harry James e orquestra, gravação dos tempos em que ainda não havia em mim nada adormecido, e a namorada usava Loção Regina.
No aniversário, surgiu a lembrança da peça “Sens Interdit” (Contramão), do francês Armand Salacrou. O autor nos coloca diante de uma personagem de um mundo onde se vive ao contrário, o nascimento é com 60, 70 anos, o que seria o nosso último dia de vida é o primeiro.
Se eu nascesse hoje, nasceria aos
Essa trajetória inversa invalidaria aqueles nostálgicos versos de Casimiro de Abreu que aprendi ainda na infância:
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Imaginou ter saudades do futuro? Nem pensar.
Inté.
Erratas
Na crônica anterior escrevi que “o Gigetto, restaurante, que desde 1940, ainda no endereço antigo da Rua Martins Fontes…” e tropecei na memória, a rua é a paralela Nestor Pestana.
O detalhe abaixo é de um painel da fachada do Teatro Cultura Artística, quase defronte ao antigo Gigetto e de autoria do Di Cavalcanti. Nos “202 Programas para fazer


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