No dia 5 de dezembro de 2014, os sinos de todos os campanários de Paris soaram em celebração aos 1.000 anos da abadia e da igreja de Saint-Germain. Da antiga abadia resta apenas um muro de pedras, no entanto, a velha igreja continua de pé, no mesmo lugar onde foi fundada no distante ano de 1014. O endereço é o número 3, Place de Saint-Germain-des-Prés, um dos mais emblemáticos pontos da Rive Gauche.
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O visitante que vem do Boulevard Saint-Germain, passando diante da igreja e entrar na rue de L”Abbaye, estará caminhando entre muros e pedras da pré-história de Paris. Ali se situava uma abadia e um claustro dos monges beneditinos, além de uma das mais celebradas bibliotecas da Idade Média. O visitante poderá notar a marca da placa que indicava a rue Neuve-de-l’Abbaye, o antigo caminho que era percorrido por Saint-Germain, bispo de Paris e fundador da igreja. E talvez note, em uma das esquinas, o grafite de um anjo e um coração vermelho. Consta ser uma anônima homenagem ao velho abade, que, como um anjo dos céus, defendia sua igreja de vândalos e invasores.
Dos muitos personagens que viveram atrás daqueles muros, Saint-Germain é um dos mais fascinantes – foi ele que sugeriu ao rei merovíngio Childeberto I erguer uma igreja para abrigar as relíquias pilhadas na guerra contra os visigodos. As lendas mencionam a capa de Saint-Vincent de Saragosse e uma cruz de ouro, contendo um fragmento da verdadeira cruz de Cristo, que eram pertencentes ao tesouro da Catedral de Toledo. Assim, a nova igreja foi batizada como Église de La Sainte-Croix et de Saint-Vincent.
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Nos séculos seguintes, a abadia se transforma em um centro de estudos religiosos, onde monges beneditinos copiavam antigos manuscritos e os adornavam com preciosas ilustrações. Quando chegam as tribos invasoras do Norte, o mosteiro é invadido e saqueado, interrompendo tempos de estudo e conhecimento. Mais tarde, nos anos 1200, o mosteiro renasce pela dedicação de novo anjo protetor, o abade Morard, que restaura a biblioteca e constrói três altas torres – das quais apenas uma sobrevive até os dias atuais.
A fama da biblioteca atraiu estudiosos e peregrinos, que chegavam de toda a Europa. Os vinhedos que cobriam a planície ao redor da abadia, aos poucos cederam lugar a novas construções, dando início ao bairro. Naqueles dias, já se podia divisar o novo prédio da Universidade de Sorbonne e, na outra margem do rio, as torres de Notre Dame em construção.
Mas a História continua inexorável e Paris vive um novo período turbulento, com invasões normandas e guerra contra os ingleses. E, mais uma vez, os monges são dispersados e parte da biblioteca, incendiada. E os ancestrais túmulos dos reis merovíngios são destruídos e perdidos para sempre.
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Outra volta na roda do tempo. Em 1600, Saint Maur, um discípulo de São Bento, reorganiza a ordem na França e consegue devolver a grandeza a St.Germain-de-Prés. A abadia retoma sua vocação como centro teológico e cultural e, durante o século XVII, produz um inestimável acervo de estudos acadêmicos e religiosos.
Então, chega a Revolução Francesa e a noite dos tempos cai novamente sobre a velha igreja. Em 1790, duas torres são derrubadas e os monges, expulsos. O abade Dom Ambrose Cheuvreux e os monges que resistem são mortos a golpes de machados e porretes pelos sans-culottes. O mosteiro é então transformado em refinaria de salitre e fundição para canhões.
A igreja é saqueada e suas capelas usadas como depósito de carvão. Em 1794, ocorre uma grande explosão no refeitório dos monges, usado como paiol de pólvora. O mosteiro é destruido e a igreja, seriamente danificada. Logo após, a biblioteca é consumida em um incêndio, mas a coleção de manuscritos é salva e levada para a Biblioteca Nacional. Mais tarde, em 1802, é aberta a rue Neuve-de-l’Abbaye, ao custo da destruição da Chapelle de la Vierge e do que restava do antigo claustro.
Com a Concordata, a cidade de Paris assume a paróquia de Saint-Germain-des-Prés. Os efeitos da explosão e a ação do salitre nos pilares de pedra colocam em questão a sobrevivência da igreja e a demolição é seriamente considerada. Surge um movimento para salvá-la que mobiliza Paris – Victor Hugo, morador do bairro, é um dos líderes mais fervorosos. Finalmente, começam os trabalhos de restauração da igreja, mas, em 1874, a abertura da rue de Rennes e do Boulevard Saint-Germain mutila mais uma área do conjunto original.
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Depois de se encantar com os magníficos vitrais de Notre Dame, o visitante deve estranhar a vidraçaria branca nas aberturas da atual igreja. Os incêndios ateados por bárbaros, invasores e revolucionários, não se limitaram a destruir os preciosos vitraux, mas também queimaram os manuscritos e desenhos dos artesões vidreiros do século XV.
Durante os trabalhos de restauro da igreja, os arquitetos decidiram instalar vidros brancos no lugar dos antigos vitrais, para lembrar os ataques, invasões e saques que a igreja sofrera ao longo de sua existência. E, talvez, o pequeno anjo na “rue de L”Abbaye” nos ajude a lembrar de como a História é frágil diante da fúria destruidora do Homem.

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