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Anselmo e o urso

Anselmo, dificuldade com as mulheres, cansado de solidão. Escreveu para o jornal: “Solteiro, 34 anos, financeiramente independente, procura a dama dos seus sonhos para …

Anselmo, dificuldade com as mulheres, cansado de solidão. Escreveu para o jornal: “Solteiro, 34 anos, financeiramente independente, procura a dama dos seus sonhos para viver um grande amor.”

Mal amanheceu, veio o telefonema. Ela não era dessas, não olhava anúncio de jornal, mas naquela manhã alguma coisa a tinha empurrado para o telefone. Destino, com toda a certeza. Deve ter alguém no céu, mexendo os pauzinhos para juntar as pessoas cá na Terra.

Conversaram bastante. Falaram do que gostavam, do que não gostavam, marcaram encontro no bar, “a las cinco en punto de la tarde” ele quis mostrar que lia Garcia Lorca, ela não entendeu pivicas, só perguntou se ele falava “castejano”.  Ela não, ela só sabia um “pueco”, estivera uma vez em Livramento-Rivera, isso no tempo do FHC, quando o dólar andava pela hora da morte e não dava pra comprar nada, os preços eram um ho-rrorrr, tudo mais caro que no camelô da Praça 15.

Tudo bem, ninguém é perfeito. Afinal, queria uma mulher ou a própria deusa das artes e das letras?

O resto do dia foi suor nas mãos, frio na barriga, maratona em busca de um presente que o tornasse amo e senhor daquele coração selvagem. Andou por joalherias, livrarias, butiques de moda, lojas de fazenda, até encontrar o urso de pelúcia imenso, quase metro e meio de altura. Ela não tinha como não se enternecer.

Às quatro da tarde já estava no bar, sentado de frente para a porta, o urso na cadeira defronte. Ficava imaginando frases para dizer a ela, o tempo passava em migalhas, o garçom de vez em quando perguntava se já resolvera o que pedir, ela não vinha, o garçom voltava, ele confidenciava ao urso que as  mulheres são assim mesmo, atrasam-se até pra igreja no dia do casamento.

Lá pelas tantas, noite adiantada, já passava das 10 horas, o garçom se irritou: “O senhor vai querer alguma coisa, afinal?”

Duas cachaças. Uma pra mim, outra pro urso.

Autor

Jayme copstein

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