Colunas

Antigo não é velho

Um jornal cor-de-rosa que aos poucos foi branqueando, fato que passava despercebido pelos leitores. Assim é descrito o Correio do Povo no livro “Arca …

Um jornal cor-de-rosa que aos poucos foi branqueando, fato que passava despercebido pelos leitores. Assim é descrito o Correio do Povo no livro “Arca de Blau”, no tempo em que Carlos Reverbel iniciava sua carreira de jornalista em Porto Alegre, depois de ter sido foca em Florianópolis.

As memórias de Reverbel, escritas em parceria com Cláudia Laitano, em edição adquirida em um sebo, não tinham a folha de créditos, logo Fu Lana não poderia saber a data da publicação. Ela devorou o texto em uma noite. A boemia e as redações, não nessa ordem, são ambientes em que sempre colocou suas melhores fantasias adquiridas no movimento estudantil, influência do cinema noir, do existencialismo francês e da resistência espanhola, tudo misturado. Ela, porém, não suportava fumaça de cigarros, bebia pouco, e, além disso, era tímida e preguiçosa, em resumo, nada a ver com os personagens que protagonizam ao redor de Reverbel. O jornalismo é um ambiente de convívio fraternal. Ou era.

Nas últimas semanas, Fu participou de vários encontros de colunistas em promoção da ARI (Associação Rio-grandense de Imprensa), e as cabeças iluminadas continuam a debater as causas que movem o mundo, mas só os intelectuais podem compreender uns aos outros. A variedade de experiências, trazidas por depoimentos mais diversos, mostrou ao público extra-jovem presente e carente que antigo não é velho e que colunas são, hoje e sempre, o que há de novo, para o bem e para o mal, na boca do povo.

Alguns palestrantes foram engraçados e contemporâneos, um que outro se disse o melhor jornalista do Estado. Fu Lana ficou sabendo que, na opinião de alguns colegas de profissão, o Rio Grande do Sul não significa nada na imprensa brasileira, que a IstoÉ é um lixo marrom e cínico, e que existe colunista que almoça todos os dias ou com um empresário ou com um político e também que, em uma confissão bem-humorada, porém machista e extemporânea, tem colunista com 35 anos de casado que não precisa chegar cedo em casa porque não tem mais o que fazer com a patroa. E pensar que ali estavam alguns dos seus chefes nos tempos em que era foca.

Não conhecia todos os colunistas dos encontros. De alguns, até recebia alguns blogs, que direcionava imediatamente ao lixo. Agora, vai rever esse método arbitrário e antidemocrático e, em uma autocrítica, vai dar uma espiadinha para não ser assim tão injusta.

A mistura de colunistas (sociais, econômicos, políticos, culturais) deu uma sensação de que a conversa estava fora de prumo. Os profissionais, como franco-atiradores, iam misturando alhos e bugalhos. Ao mesmo tempo em que um dizia ter assunto sempre ao escrever diariamente, outro revelava que ficava horas em frente à máquina (pelos depoimentos, a época ia para bem antes da chegada da informática) ou do terminal. Sem falar nos critérios apresentados por cada jornalista. Talvez por não conseguir imaginar o dia-a-dia de um cronista social, Fu Lana fixou-se nesses depoimentos. Um deles dizia que Bagé podia se orgulhar de ter gerado o único colunista social macho. Outro colunista dava em sua coluna (sem trocadilhos, por favor) somente batizados com o nome dos pais (o que ressaltou ser fundamental) e se o cara tivesse sido muuuuuito importante no passado, nem precisava ser ainda rico para aparecer. Ainda no soçaite, há os que não querem ser divulgados para não caírem na malha fina do IR e há também as menininhas que não querem aparecer pois têm medo de ser seqüestradas.

Colunistas políticos tiveram que se autodefinir sem ideologia, entre apupos do público, e alguns intelectuais por suas atitudes polêmicas agitaram a platéia e causaram, claro, mais polêmicas. Um depoimento que se pode nominar, o de Sérgio da Costa Franco, está fora de qualquer julgamento. Ante este tiranossauro, segundo sua própria definição, devemos nos erguer e aplaudir, dada a sua contribuição para a história e para o jornalismo. Foi o colunista que nos passou algumas dicas em sua palestra que, na verdade, teve a forma de uma crônica. Uma delas é que não se deve falar nas colunas de assuntos do tipo política, religião e CACHORROS! Surpresos, todos riram. Ele explica. Uma vez escreveu sobre vira-latas em sua rua e pediu a volta da carrocinha. Foi quando recebeu o maior número de protestos do público. “Cachorros são entes protegidos pelos céus. Tem até uma velhinha assídua em responder e criticar colunas que escreveu: (ela deve ser uma nazista, comentou antes…) são as crianças de rua que estão sobrando, deveríamos recolhê-las e dar um jeito em tantas crianças que nascem para ficar rolando”.

Ele, muito lúcido, disse que hoje as colunas falam sobre os umbigos dos próprios colunistas (e Fu Lana encolheu-se na cadeira com o chapéu justinho…). Isto porque não se sai mais de casa. Fala-se de shoppings, de mídia, de cinema, porque os colunistas não caminham pela cidade e não percebem o cotidiano. Obviamente, o antigo jornalista falava sobre a forma de viver de sua época. Trazia o tempo nas palavras, assim como Reverbel no livro sobre o qual Fu Lana se debruçava. “Afinal, a crônica é o retrato de pequenos flashes do convívio humano e hoje as colunas não refletem o coletivo, mas a vida individual de cada um”. Que ele seja bem-vindo à nossa realidade pseudointelectual e individualista.

Outro palestrante parecia ser regido pela lua. Um dia, não gostava de um supermercado, daí baixava o pau na coluna. Outro dia, não entendia o que um político dizia, cacetada nele. Termos modernosos? Abominava. Assim, então, com certeza. Meio viajandão, ele.

Naquele evento, Fu Lana aprendeu também que coluna tem opinião e existe para isso. E que sempre haverá a paranóia. Uma das mulheres colunistas revelou que tem medo ao escrever tão intensas são as represálias grosseiras e ameaçadoras que recebe. É óbvio que ela escreve sobre política. Disse que, um dia, foi ofendida até a quinta geração e não sabe se deve continuar nessa função. Porque apenas está colunista.

Na mesma semana, do outro lado da cidade, em outra turma, Fu Lana ouviu jornalistas que convivem com a literatura falarem, em resumo, sobre a teoria das brechas no jornalismo. Foi na Saideira, evento da Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). Aprendeu que para se fazer um texto abrangente, atraente, consistente e gostoso, é preciso tempo, dizem uns, é preciso estofo, dizem outros, mas o consenso é de que existem brechas, espaços mínimos e condições para se fazer um jornalismo literário. Brechas no tempo, brechas nas barreiras erguidas pelos patrões, brechas mentais.

A semana foi demais, e Fu Lana, zonza, voltou a ler as memórias de Reverbel. Não sabe se o glamour daquelas páginas estava na vivência, na forma de contar ou na capacidade de enxergar em sua vida talentos em cada segundo, no que faz e nos que o cercam, com suas qualidades e defeitos. “A Arca de Blau” é leitura obrigatória, não só porque devolve a vida ao passado de Porto Alegre, do Estado, mas, principalmente, porque devolve vida ao próprio leitor, que de há muito precisa ser estimulado a olhar para os seus próprios pés, e esquecer o umbigo. Olhar onde está, com quem, fazendo o quê. E esquecer uma tal de pirâmide invertida. Afinal, a história não acabou coisa nenhuma.

Autor

Clo Barcellos

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