Não costumo arriscar meus palpites, quase sempre radicais, em assuntos polêmicos. Não por temer a enxurrada de mails protestando contra a minha opinião. Não por evitar envolver-me em luta de titãs. E menos ainda por não ter argumentos suficientes para fermentar a discussão. Sempre que estouram na imprensa questões bombásticas, como a da lei federal que proíbe qualquer índice de ingestão de álcool por motoristas, recordo-me das palavras sábias de um ex-secretário municipal petista que assessorei e me ensinou que tudo pode ser discutido, reavaliado e até mesmo provocar uma mudança, desde que se tenha argumentos adequados.
A lei é draconiana e a punição mais ainda. Assinada pelo presidente Lula, que nunca escondeu sua predileção pelas bebidas alcoólicas, a nova lei, já em vigor, passa a classificar como infração gravíssima o ato de dirigir sob a influência do álcool. E os infratores, com concentração alcoólica acima de 0,6 g/l de sangue, serão punidos com multa, suspensão do direito de dirigir por um ano, apreensão da carteira de motorista e retenção do veículo. Mas, desde quando alguma lei no Brasil é cumprida se não vier acompanhada de penalizações drásticas, merecidas e, de preferência, que mexa no bolso do infrator? Desconheço.
De repente, muita gente é contra. Ou porque a lei é muito severa. Ou porque não multa em zona rural. Ou porque ignora o motorista que fez uso de drogas ilegais e consumidas em larga escala, como a maconha ou cocaína. Ou porque o padre que reza quatro ou cinco missas no mesmo dia não poderá dirigir depois, já que ingeriu vinho, o sangue sagrado de Cristo. E tem formador de opinião que chegou a comentar que alguém que consumisse dois bombons recheados com licor já teria atingido a concentração prevista na lei e enquadrada na punição. Valei-me Nosso Senhor do Bonfim e livrai-me de tanta hipocrisia!
Não é por não abordar a ingestão de outras drogas ilícitas, não prever o caso do padre, do delicioso bombom de licor que deixaremos de apoiar a lei. Toda esta bronca tem cheiro de brincadeira de criança. Mais ou menos assim. Ah, se a lei não tiver isso e isso, blá, blá….não é perfeita e tem furos (“ai, se tu não fizer assim, não sou mais teu amigo”). Tem jeito de ingenuidade disfarçada. Ah, mas não é só o álcool que é responsável pelos acidentes (“ai, meu deus, por que a lei já não incluiu punições ao consumidor de maconha e cocaína”). Simples. Principalmente porque o combate deve ser ao tráfico e não só ao consumo. E aí o buraco é mais embaixo.
Vou tentar defender com o único argumento indiscutível que conheço e, com certeza, entendido por todos aqueles que têm filhos pré-adolescentes, adolescentes ou adultos e que os amam. Você os concebe com amor, troca-lhe as fraldas, acorda à noite para amamentar, uiva quando diz a primeira palavra. Pesquisa creches e colégios para escolher. Ajuda nos temas. Leva aqui e acolá, de táxi mesmo (haja dinheiro). Espreme seu orçamento para não lhe faltar o essencial. Isto é educar. Estar presente em todo o processo de crescimento. Do dia prá noite, seu bebê transformou-se numa bela mulher arrumadérrima para as baladas.
E você lhe ensinou a não beber. Não aceitar bala ou refrigerante de estranho (oh, my god, mamãe falava isso). Cuidar para que não coloquem nenhum comprimido na sua bebida. Também já deve ter conversado com seu filho (a) sobre o perigo do consumo de outras drogas (ei, não sou careta, eu não nasci de óculos, eu não era assim!!!!). E se já tiver idade e carteira de motorista e carro, aprendeu, em casa, que se beber não é para dirigir. Tudo ensinadinho e falado a exaustão toda vez que seu rebento sai à noite. Não importa a idade do filho. Se ele mora com a gente, só vamos dormir depois que ele chega em casa são e salvo.
Agora. Num esforço de imaginação, que não desejo a ninguém, pense que seu filho está demorando e que começa a amanhecer e ele não telefona e não atende o celular. E você já gastou todo o meio da sala de tanto dar voltas, viu mais de duas vezes o mesmo DVD e nada. Não consegue dormir. Até que o telefone toca. E uma voz desconhecida informa que seu filho faleceu. O carro em que ele voltava com o pai de um amigo, sem nenhum dos três consumir bebida, foi abalroado por outro, que saiu ileso, e não passou no teste do bafômetro. Pelo menos, seu filho poderá não morrer mais na curva da impunidade.

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