Prepare o seu coração, pras coisas que eu vou contar, eu venho lá da cidade e posso não lhe agradar. Sabe por quê? De carona na música “Disparada”, levemente adaptada quanto à terra natal (na original, a pessoa vem do sertão) de Geraldo Vandré, digo que, simplesmente aprendi a dizer não. E esta coragem de arcar com as minhas respostas, independentemente da repercussão, nem sempre me rendeu bons dividendos. Se fosse, desde menina, politicamente correta, disfarçava um pouco os meus sentimentos. Com certeza, jamais teria ficado desempregada, nem visto reduzir, subitamente, o número de supostos amigos.
Mas, incapaz sempre de mentir, acumulei alguns desafetos e desamores. E até ter a consciência da maturidade de que se deixaram de ser afetos e amores, é porque nunca os foram verdadeiramente, estive muito empenhada em consertar as pequenas feridas que não cicatrizavam. Como se garantir que gostar da banda tal pudesse manter um namoro. Ou se aceitar uma esquisitice de amiga que nunca pode sair porque o trabalho lhe exige 24 horas por dia assegurasse a manutenção dos sentimentos. São pequenas desculpas que adotamos para não aceitar o efeito da nossa sinceridade ou até mesmo a decepção com o que podemos dar.
A declaração pública de que perdi pessoas e situações importantes na minha vida particular e profissional pelo excesso de sinceridade pode parecer um atestado de mea culpa, uma armadilha fácil e hipócrita de jogar a responsabilidade de meus desacertos nos outros. Na realidade é apenas uma constatação tardia, mas não arrependida, de que os falsos, mentirosos e de lábia fácil mantêm, por mais tempo, ou pela eternidade, empregos, amigos ou amores que nem sempre estão de acordo com as suas crenças. É mais ou menos como o traído, seja homem ou mulher, que é sempre o último a saber. Mas isto é outra crônica.
Só que a mesma voz que magoa ao desmascarar uma mentira é aquela que afaga com a verdade espontânea. É preciso, no final de cada episódio, fazer um balanço e analisar os prós e os contras. Acredito que perder amigos ou colegas ou até mesmo conhecidos pelo que se disse de verdadeiro, e não foi bem digerido, não deve ser tão penoso quanto perder uma ideologia, um futuro ou uma emoção pelo que se deixou de afirmar, posicionar e acreditar. A lógica é simples: o que construo com minhas convicções políticas e de ética poderá ser usado, mais, tarde pelo amigo que me deixou.
Este turbilhão de ideias sobre a conveniência de se falar a verdade ou não me invadiu ao receber um email carinhoso demais de um amigo virtual, que toda segunda-feira me emociona com sua coluna aqui no Coletiva. Ao responder ao convite informando que não poderia, por motivos de distância (ele mora no Rio de Janeiro), comparecer ao lançamento de meu segundo livro coletivo de poesias, no dia 5, às 18h, no Memorial, em plena Feira do Livro, o Mario Almeida atestou que as mentiras sinceras não me interessam mais. Com açúcar e com afeto, ele mostrou que acredita nos meus sentimentos sempre à flor da pele.
Gosto de fazer associações. De procurar onde me perdi. De calcular se é benéfico me achar. De recolher as pedras no caminho. De relacionar pequenos detalhes meus e não do Roberto Carlos para respaldar colunas, poesias, bilhetes em guardanapos. Por isso, um email tão verdadeiro me deixou emotiva. Sei que ele estará na minha fila de autógrafos em pensamento. Sei de muitos que não poderão ir por compromissos de trabalho, de família, de saúde. Sei daqueles que foram, no ano passado, e me inundaram de afagos. Mas sei daqueles que ainda preferem as mentiras e eu já não as posso dizer.
