Colunas

Aprendi com a primavera (*)

O mês de setembro está quase findando e percebo que os meus dias foram intercalados com flores e poesias. Cada pensamento, vestido de desejo, …

O mês de setembro está quase findando e percebo que os meus dias foram intercalados com flores e poesias. Cada pensamento, vestido de desejo, quando é novo, e de recordação, quando é velho, nasceu abraçado a alguma flor ou alguma rima. Todo o gesto, tanto o intempestivo, que fere ou não, dependendo da hora em que é executado, como o calculado, por vezes burocrático e outras até surpreendente, apesar de sempre planejado, tiveram um discreto perfume de flor e palavras casadas ou separadas pelas rimas de amizade, felicidade, saudade, vontade, flor da idade e puberdade.

Impregnada pelo aroma das flores e pela beleza dos poemas, fui regando o jardim da minha vida e contando as etapas em haicais, poemetos, poemas, sonetos e colunas. Até que ao reler um tópico no blog da sensacional Lydiah (blogdalydiah.blogspot.com), descobri o derradeiro mistério de setembro. No blog (minha leitura diária obrigatória), ela diz que setembro, no Hemisfério Sul, é o mês do crescimento, e todas as sementes do que desejamos colher devem ser plantadas. Mas, para não desperdiçar a generosidade da terra, a semente plantada deve ser verdadeira.

Talvez isso explique a minha comovente emoção ao ajudar na confecção coletiva de um livro de poesia da Comunidade do Orkut “Poemas à Flor da Pele”, que será entregue a alguns alunos do Ensino Fundamental das escolas de Bento Gonçalves. Na publicação, feita de forma artesanal, os poetas que estarão na cidade gaúcha para o XVI Congresso Brasileiro de Poesia, que ocorre de 6 a 11 de outubro, em Bento Gonçalves, mergulharam na memória em busca de fotos da infância e poemas dirigidos à faixa etária que freqüenta o Ensino Fundamental.

A certeza de que plantava minha melhor verdade, como a Lydiah afirma no blog, foi atestada por outros fatos que marcaram o mês. A troca intensa com os integrantes da “Poemas à Flor da Pele” ao definir um roteiro de apresentação no XVI Congresso. A torcida para o sucesso do lançamento da antologia poética da comunidade, no dia 9 de outubro, durante o evento em Bento, no qual participo com cinco poemas. E a expectativa do próprio Congresso, que reunirá poetas de todo o Brasil, preocupados em difundir a poesia, em suas mais variadas formas do fazer poético. 

Juntos, no XVI Congresso Brasileiro de Poesia, vamos visitar escolas, realizar performances, assistir a recitais, ver exposições, comparecer aos diversos lançamentos de livros e, principalmente, consolidar o evento, que já é de grande importância para a cultura nacional. E a preparação para o Congresso me exigiu algumas noções de formatação de poesias no Orkut. Mais uma semente plantada. Uma das moderadoras da “Poemas à Flor da Pele”, a Lenise Marques, tem uma paciência mais do que internética ao ensinar os alunos a mexer com links, códigos, gifs e scraps.

Foi a Lenise que me brindou, na bela manhã de quarta-feira, com o poema “A descoberta do mundo”, de Clarice Lispector, que reforça o motivo do meu namoro com setembro. Diz a poesia: “um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente – como em dores de parto – e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.” Tudo que fiz, em setembro, foi para que não morresse a menina que ainda habita meu corpo e mente. 

Sem planejar, estive no meio das flores ao procurar as imagens para as formatações dos poemas. E fui criança me deliciando com as suas formas, cores e cheiros. Sem programar, visitei o meu baú de fotos para o livrinho “Poemas à Flor da Idade” que entregaremos às crianças em Bento. E me revi criança, alegre, faceira, vivaz. E tão ansiada fiquei, como convém a toda criança, que antecipei em um dia o aniversário da Ana Pompa, amiga da turma da Famecos, a “Saudosa Maloca”.  Como já disse Cecília Meireles, “aprendi com a primavera a me deixar cortar. E a voltar sempre inteira”.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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