Valoração de aquisição de ações, análise da operação pelo Cade, definição da diretoria, projeções de vendas no mercado externo e interno e estratégia de comunicação do fato relevante ao mercado são algumas das penosas, com o perdão do trocadilho, que absorveram o tempo e a energia dos administradores da Perdigão e da Sadia nos últimos meses.
Não é para menos. Estavam a constituir a maior processadora de carne do mundo e a terceira maior empresa exportadora do Brasil – a Brasil Foods.
O maior desafio, entretanto, virá após a consolidação formal do negócio, na operação cotidiana da nova organização. Fusões ou aquisições implicam aproximação de empresas que, em geral, não compartilham os mesmos valores.
Valores são aquelas crenças organizacionais que orientam a forma de agir das empresas, delimitando suas práticas em relação ao mercado, à concorrência, à sociedade e ao governo, para citar alguns públicos.
São os valores que determinam se uma organização será mais burocrática, no sentido weberiano, e formal ou mais despojada e informal.
Faz parte das lendas empresariais brasileiras a história do início da incorporação de uma companhia por outra, provocando reuniões entre a média gerência das duas. Numa delas preponderava a informalidade, onde jeans, tênis e camiseta polo eram quase um uniforme; na outra, o estilo conservador permeava o vestir e o agir.
Na empresa informal era normal uma dinâmica nas reuniões: antes de iniciar, cada participante era municiado por tomates de pelúcia que eram atirados naqueles que emitissem opiniões consideradas despropositadas. Estranho, porém pertencente ao código daquela organização.
O problema surgiu quando um gerente oriundo da outra cultura organizacional levou a primeira tomatada. Ainda bem que havia a turma do “deixa disso”…
Esta história ilustra bem o desafio na Brasil Foods: o alinhamento de valores que, quando consolidados, certamente não serão os mesmos de nenhuma das empresas originais, mas uma mescla dos credos organizacionais das duas, tendendo a preponderar os daquela cujos valores são mais arraigados.
A tendência à divergência num primeiro momento é significativa. A Perdigão, embora originalmente familiar, há muitos anos vem sendo administrada por executivos nomeados pelos fundos de pensão que a controlam; já a Sadia mantém um modelo mais próximo do das organizações familiares – seu principal gestor é o ex- ministro Furlan, membro da família.
Será um processo gradual, que requer ação gerencial para ser acelerado sem solavancos.

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