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Aristófanes

Por José Antônio Moraes de Oliveira

 

Nos meus tempos de ginásio, havia um colega de classe que se chamava Aristófanes. Era um nome que muito me intrigava – não conseguia entender porque alguém deveria carregar um nome tão pesado pelo resto da vida. Até que um dia, achei um jeito de perguntar ao Aristófanes de onde saíra aquele nome. Ele, meio encabulado e sem graça, falou que odiava o nome, mas que era uma homenagem do pai, professor de História a um sábio grego que ele admirava. Dei um abraço ao colega e fui me ocupar de coisa melhor.

***

Uma semana depois, diante da Biblioteca Pública, me resolvo a procurar uma boa leitura para as férias. Enquanto a moça do balcão procura minha ficha de leitor, vou rondar pelas prateleiras atulhadas de livros. Há um denso cheiro de poeira e coisa velha que recorda dos tempos na fazenda do Passo Grande, quando soprava o minuano forte e as tias corriam a trancar portas e janelas. 

Então, a casa cheirava aos guardados do avô, almanaques, livros e alfarrábios de história e medicina que ele encafuava nos baús, armários e até debaixo de sua cama de ferro. As lembranças me levaram por entre as estantes até chegar à seção de História. Ali estavam eles – os sábios gregos que o pai de meu colega tanto admirava. Passei pelas lombadas: Aristóteles, Platão, Plutarco, Arquimedes, mas nada do Aristófanes. Leio aqui e ali alguns dos livros e quase perco a hora do almoço, mas chego em casa com Platão e Plutarco debaixo do braço.

***

Alguns tantos anos se passaram e chega a hora de enfrentar o temido exame oral de Filosofia. Na banca à minha frente, o mais severo dos examinadores; ele me conhece da sala de aula e sabe que não estudei a matéria como deveria. O Irmão José Otão me olha com gravidade e sorteia o ponto. Então sorri, mostrando o papelinho – Filósofos gregos.                          

Obrigado, Aristófanes.

***

Mas me encanto com alguns de seus ditos mais famosos: 

“Espera de teu filho o que fizeste com teu pai;”

“Longos discursos não indicam sabedoria;”

“Usa também o conselho que dás aos outros;”

“É sábio aprender com os erros dos outros;”

“Quando os bons se recusam a agir, são punidos a viver sob o governo dos maus.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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