
O poeta Manuel Bandeira brincava com os amigos, dizendo que era capaz de lembrar dos menores detalhes do casarão no Recife, onde nascera 60 anos antes, mas não saberia dizer onde deixara a caneta que usara pela manhã. Outro poeta do tempo, Carlos Drummond de Andrade dizia que somos fadados a deixar um pouco de nós no que tocamos ou fazemos:
“…Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio um pouco ficou…”
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A boutade de Bandeira procura disfarçar as artimanhas do tempo – como quando nos sonega o que se passou na mais recente esquina de nossa vida, enquanto entreabre misteriosas janelas do passado, para revelar fragmentos de memória que ficaram perdidos em dias esquecidos. Neste momento em que escrevo, não lembro o nome do medicamento receitado para estimular minha memória, mas recordo com exatidão o desenho e as palavras dos rótulos da Cafiaspirina e do Xarope São João.
Seria incapaz de repetir a manchete do jornal que li hoje de manhã, mas tenho nítida na memória a capa do Almanaque do Tico-Tico de 1943, que ganhei de presente de meu pai quando passei de ano. Também posso repetir os números da placa de um certo Opel Käpitan 1951, meu primeiro carro, comprado a prestações, de um colega de jornal. Mas preciso pensar alguns minutos se me perguntarem a placa do carro que está na minha garagem.
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Estou tentando lembrar o elenco do “Discurso do Rei”, filme ganhador de 4 Oscars em 2010 e que assisti por duas vezes no mês passado. Mas, em compensação, posso recitar os nomes do diretor e do elenco de “O Tesouro de Sierra Madre”, que vi no antigo Cinema Rex, na Rua da Praia em Porto Alegre, no distante ano de 1948. Há alguns verões passados, plantei um pé de flor, que chamei de “Bandeira Belga”, pois esqueci o nome botânico. No entanto, sou capaz de repetir, quase sem êrro, o nome das árvores da alameda que meu avô plantou na entrada de sua antiga fazenda.
Em um certo dia, ele me conduziu pela mão, apontando para cada árvore, enquanto recitava seus nomes botânicos e de vulgo e suas qualidades. Uma era boa para fazer um chá “calmante dos nervos”, aquela outra curava bicheira de ovelha. A de folhas longas e tronco rugoso produzia uma flor que perfumava as noites. Seu nome era Cestro Nocturnum, e que as mulheres chamavam de “Noiva da Noite” ou “Jasmim Noturno”. Já aquela outra, de grande copa e frutos vermelhos, eu deveria evitar.
Era a mal afamada Aroeira cuja casca tinha propriedades medicinais, mas as folhas provocavam comichão em época de lua nova. No final da alameda, ele mostrava os grandes Eucaliptus Regnans que havia plantado há mais de 40 anos. Ele sentia orgulho das altas ávores, contando que se tratava de uma espécie vinda da Oceania, que haviam drenado o terreno antes pantanoso e alagadiço e onde agora brotavam seus limoeiros, laranjeiras e bergamoteiras. Depois, me mandava colher um ramo de folhas de eucalipto.
Então, com sua voz cúmplice, ensinava que as perfumadas folhas, ainda verdes, colocadas sobre brasas acesas, eram o melhor remédio contra males respiratórios. E, de quebra, ajudavam a afugentar os mosquitos no verão.
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No outro dia, quando um amigo se queixava de mosquitos em sua casa de veraneio, me veio à lembrança o cheiro acre de folhas verdes crepitando no braseiro. Sem pensar duas vezes, sugeri que ele queimasse folhas de eucalipto no quarto, antes de deitar. O olhar de espanto que recebi de volta, serviu como um aviso para guardar para mim mesmo as lembranças dos tempos que não voltam mais.
Enquanto isso, preciso me atualizar sobre os sprays de matar mosquitos.
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“Lili e sua boneca cansaram
De viver no presente
e fugiram para o passado”.
Mario Quintana.

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