A semana começou com o Dia da Bandeira. Confesso minha ignorância: não sei se há outro país que consagre um dia à sua bandeira. Claro, em todos eles sempre haverá atividades especiais na escola primária para ensinar a gurizada o que significa o símbolo da pátria, mas de dia especial nunca ouvi falar.
A ênfase que se dá à criação da Bandeira no Brasil deve-se à polêmica que estourou no próprio dia 16 de novembro de 1889, quando a República foi proclamada sem querer, e não no dia 15, como ficou consagrado oficialmente. O marechal Deodoro da Fonseca só tinha pretendido derrubar e prender o Visconde de Ouro Preto, chefe do governo, seu desafeto antigo. Foi um caro custo convencê-lo de que tinha derrubado a Monarquia no Campo de Santana (hoje Praça da República, Rio de Janeiro). Só aconteceu na madrugada do dia 16, quando soube que outro desafeto, o gaúcho Silveira Martins, fora nomeado para substituir Ouro Preto.
A República foi tão inesperada naquele momento, que sequer havia bandeira para substituir a do Império, criada em 1822 pelo francês Jean Baptiste Debret. Às pressas, improvisou-se um modelo que, a não ser nas cores, copiava fielmente a bandeira norte-americana. Tinha treze listras horizontais, entremeando verde e amarelo. No canto superior esquerdo, também exibia um retângulo azul onde brilhavam 21 estrelas, representando os 20 Estados daquela época, e mais o chamado município neutro, o Rio de Janeiro, capital do Império. Passou a ser Distrito Federal, após a proclamação da República, quando o país se transformou em federação.
Foram hasteados pelo menos três exemplares desta primeira bandeira: um, no mastro da redação do jornal A Cidade do Rio, de propriedade de José do Patrocínio, o Tigre da Abolição; outro, no navio Alagoas, que conduziu a família real para o exílio na Europa; o terceiro, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por iniciativa do Clube Republicano Lopes Trovão. Esta tinha o retângulo com as estrelas em preto, não em azul, para homenagear a raça negra, segundo algumas versões..
Retângulo azul ou preto, ninguém gostou da imitação. Já bastava o nome – República dos Estados Unidos do Brasil.
Um novo projeto foi proposto pelo presidente da Apostolado Positivista do Brasil, Raymundo Teixeira Mendes, com desenho do pintor Décio Villares. Adaptava a bandeira do Império – losango dourado sobre fundo verde – substituindo o escudo imperial pela esfera azul, reproduzindo parte do céu, tal como era visto nas primeiras horas da manhã de 15 de novembro no Rio de Janeiro. Por sugestão de outro líder positivista, Miguel de Lemos, incluiu-se a faixa com o lema “Ordem e Progresso”, bordada em cor verde, resumindo a filosofia de Augusto Comte. Foi adotada como símbolo oficial pelo decreto número 4, de 19 de novembro de 1889, redigido por Ruy Barbosa.
As pessoas tinham dificuldade de visualizar a disposição das estrelas, definida pelo professor Manuel Pereira Reis, da Escola Politécnica. Além de não estar representadas em seu brilho real, foram postas como se estivessem sendo vistas do espaço, não da Terra. Como se Deus estivesse olhando o Brasil.
A primeira bandeira assim desenhada, confeccionada e bordada pelas filhas de Benjamin Constant, integra hoje o acervo do Templo da Humanidade do Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil. Também foi preservada outra, das listras verdes e amarelas, mas a de retângulo azul, hasteada no navio Alagoas. Está no Museu da República do Rio de Janeiro.

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