Uma rotina sem as travessuras infantis torna-se muito enfadonha e sem graça. Uma tarde de folga sem uma criança repetindo tudo que escuta dos adultos é totalmente monótona. Um bom dia, mesmo que às 8h da manhã de um domingo gélido, sem o beijo gostoso e sapeca de uma menininha de dois anos e quatro meses, não é nada promissor. O leitor pode ficar tranquilo e dispensar as felicitações. Não sou avó ainda e espero não ser tão cedo porque entendo que a juventude é uma época para ser aproveitada sem estar presa a compromissos. Graças a Nossa Senhora Protetora das Adolescentes Conscientes, a minha filha Gabriela também pensa assim. Mas nem por isso deixo de reconhecer a benção nos cotidianos povoados por estes pequenos seres.
A minha família, que anda tão carente de pessoas adultas pela perda de alguns dos seus membros, ganhou dois novos integrantes no primeiro semestre deste ano. Os guris pequenos, Lucas, de seis meses, filho do meu irmão Fernando e da minha cunhada, e o João Pedro, de três meses, filho da minha sobrinha Camila, conseguiram remexer a minha vida sempre tão organizada e sem grandes sobressaltos. A dupla, embora ainda de pouco peso, pretende juntar-se às brincadeiras protagonizadas pela Lohana, a primeira filha da sobrinha Camila, e que se revela uma fã incondicional dos desenhos animados e filmes para os baixinhos.
O sono vai embora. O mau humor desaparece. A preguiça nos abandona. A falta de vontade deixa de existir. E tudo passa a ser urgente. Porque o que as crianças não podem de jeito nenhum é esperar. O tempo delas é presente. Elas são impacientes para ir dormir, para terminar a brincadeira, para emprestar o brinquedo, para comer a refeição na hora certa, para escutar e atender a negação e para obedecer às combinações dos pais. Mas também são impacientes para dar aquele abraço apertado e desajeitado. Para sapecar tios, madrinhas e vós emprestadas de beijos melados e seguidos. Para se pendurar no colo dos familiares e pedir um upa. E mais um upa e depois mais um upa.
Meu final de semana foi assim. Uma creche ambulante. Um jardim de infância lotado. Emoções soltas no parque de diversões. Abraços, beijinhos e carinhos sem nenhuma intenção oculta. Dois dias que me renovaram a vontade de viver. Um sábado que foi diferente de tantos outros pela qualidade dos acontecimentos. Um domingo que não teve o seu caráter eternamente chato pelas novidades. Que me mostraram que a felicidade pode sim ser algo tão simples e já incorporado ao nosso dia-a-dia. Um sábado dividido entre as descobertas recentes do meu afilhado/sobrinho Lucas. E um domingo literalmente no chão ajudando a Lohana a montar casinhas ou fazendo o João Pedro nanar.
E depois de uma intensiva com crianças, parece que nada mais é impossível. Que os nossos sonhos voltam a ser sonhados. Os nossos inimigos deixam de ser tão persistentes. Os nossos problemas vislumbram as soluções. E a vida mostra-se um eterno conto de fadas ou uma estória de amor bem acabada.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial