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As gaiolas do Cypriano

– Ernesto Corrêa! Tenho a resposta pronta, “na ponta da língua”, como se dizia antigamente, quando me perguntam quem foi o jornalista mais criativo …

– Ernesto Corrêa!

Tenho a resposta pronta, “na ponta da língua”, como se dizia antigamente, quando me perguntam quem foi o jornalista mais criativo que conheci. Dele poderia contar uma infinidade de casos, sem resvalar para o folclórico que apenas alegra, mas não enriquece a biografia de ninguém.

Vou me cingir apenas a um deles, para dar medida de quanto dependia de talento o jornalismo daquela época. Sem internet, sem televisão, a aviação recém-emplumando, o rádio na adolescência da era pré-transistor, o telex esperando decênios para ser inventado, o máximo que se podia contar era com a precariedade do telégrafo e da telefonia.

Assim mesmo, um “deus-dará”. Qualquer chuva miúda encharcava as linhas e cortava as transmissões. Teve telegrama “cansado” de viajar de trem. As quatro horas normais de espera, para qualquer ligação telefônica com o interior do Estado, podiam se encompridar dias a fio, até ser restabelecido o serviço. Foi neste contexto que os repórteres dos jornais porto-alegrenses embarcaram sexta-feira, no noturno de Santa Maria, para cobrir um congresso de ruralistas, no dia seguinte.

Ninguém consultou a meteorologia porque, naquela época, previsão de chuva dava qualquer coisa imaginável ou inimaginável, inclusive… chuva. Mas o céu estava carregado e todos ficaram alegres, com a certeza do passeio, chope e churrasco, sem a chateação de resumir discursos, proclamar o Brasil país essencialmente agrícola e desancar o pau na saúva.

Minto. Todos alegres, não. O Cypriano Bernd, enviado do Diário de Notícias, estava sério, caladão e compenetrado. Tinha fama de excêntrico. Ninguém levou muito na conta as gaiolas que levava, uma em cada mão, cobertas com uma capa, com toda a certeza para não perturbar o que quer que fosse que ele tivesse inventado de carregar dentro delas. Coisas do Cypriano.

O sábado amanheceu de dilúvio. Chovia a não mais poder. Telégrafo parado, telefones mudos, ninguém se preocupou com o Congresso.

Minto. Ninguém, não. O Cypriano se preocupou. Compenetrado, foi assistir aos debates. A turma descansou. Apanhariam com ele os dados da matéria, todos dariam a reportagem na edição de terça-feira (os matutinos não circulavam às segundas, naquele tempo) e todos seriam felizes para sempre.

Domingo, na viagem de volta, o Cypriano, já nem tão sério nem tão calado, bom colega que era, não se negou a passar a matéria aos demais. Desceu até a pormenores que cada um aproveitaria ou não, segundo seu próprio critério do que é e não é notícia.

Só que, quando desembarcaram em Porto Alegre, o Diário de Notícias “chamava” o Congresso na última página e dedicava generosos espaços a decisões importantes dos ruralistas no interior da edição. Não foi possível tomar satisfações do Cypriano porque ele se evaporou, como se fosse passe de mágica, mal o trem tocara na estação.

Os repórteres olharam-se bestificados, sem saber o que dizer. Um dele gaguejou: “As gaiolas!.. As gaiolas do Cypriano!”

Eram as gaiolas, mesmo. Quando soube que o congresso dos ruralistas ia tomar decisões importantes, Ernesto Corrêa, diretor do Diário de Notícias, olhou o céu carregado e telefonou para um amigo, da Sociedade Columbófila.

– Pombo-correio voa com chuva?

– Voa, sim. Com sol ou com chuva!

O difícil foi convencer Cypriano Bernd a carregar as gaiolas. Sem elas, já tinha fama de excêntrico, o que iam dizer dele?

Ernesto Corrêa sorriu.

– Espera, Cypriano. Eles vão perder a fala. Nem não vão ter o que dizer.

Autor

Jayme copstein

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