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As lutas por igualdade de direitos não podem ser seletivas

Por Márcia Martins

Uma das maiores vozes do feminismo negro, a ativista Ângela Davis já ensinou que “numa sociedade racista, não basta não ser racista, mas é necessário ser antirracista”. E a luta contra a discriminação e o preconceito não pode e nem deve escolher a quem irá defender. Da mesma forma, num País ainda dominado pelas ideias machistas do patriarcado, onde a mulher é morta pelo fato de ser mulher (feminicídio), recebe salários inferiores aos homens quando exercem as mesmas funções e, muitas vezes, são julgadas pelas roupas que vestem e se os trajes poderiam sugerir algo mais, as lutas do feminismo não podem selecionar os alvos a serem defendidos. 

Com isso, quero dizer que as bandeiras das causas identitárias não podem, de maneira alguma, serem seletivas. Por exemplo, não é correto ser solidária com alguém que sofreu um ato de racismo somente se a pessoa atingida tiver alguma empatia com algo que defendo ou acredito. Da mesma forma, um crime de LGBTfobia (ódio ou rejeição às pessoas que pertencem a essa comunidade), só irá merecer o meu desagravo ou repúdio se a agressão envolver uma pessoa que comunga com as minhas ideologias. 

O feminismo precisa ser amplo, restrito e universal. Não é compreensível dizer que a surra que fulana levou não merece o apoio das feministas porque ela não é, digamos assim, exatamente do campo da esquerda. Não me importa se foi a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) que apanhou em situações controversas no seu apartamento funcional em Brasília, segundo ela mesma denunciou, no dia 18 de julho. Igualmente, se fosse uma mulher alinhada politicamente ao meu campo, uma madame ou uma moradora da favela, iria receber sim a minha solidariedade. 

Quando ocorre algum caso de violência contra a mulher, é preciso exercer a sororidade, essa palavrinha linda mas que, às vezes, fica só na teoria. É necessário lembrar que a agressão poderia sim, infelizmente, ser com alguma mais próxima de nós ou de quem gostamos. Sinto muito, mas não podemos aceitar passivamente que mais uma mulher apanhou neste País. Seja por desafetos políticos (e ela os têm), pelo marido que dormia no quarto ao lado (não se sabe ainda todo o teor da narrativa que apresenta fatos nebulosos). Nesta altura, não me interessa quem bateu e sim entender que precisamos, mais do que nunca, estar unidas. 

Só assim poderemos pensar, quem sabe um dia, que o Brasil deixará de ocupar o quinto lugar no ranking da ONU de um total de 82 países pesquisados que mais mata mulheres pela questão de gênero. O feminicídio pode começar por uma surra mal explicada e ter a cumplicidade de quem defende as lutas por igualdade de direitos de maneira seletiva.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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