Não me recordo de nada mais marcante guardado no meu baú de memórias boas do que um período de férias escolares que tive na casa de minha madrinha. Exceto, é claro, o nascimento da minha amada filha, Gabriela. Insuperável sempre. Pois, com a ressalva feita, lembro que eu recém havia feito 11 anos e de mala estufada de roupas engomadas e muitas promessas de diversão, fui mandada para o apartamento da minha tia/madrinha, já falecida, para passar alguns dias no centro de Porto Alegre. Na época, fugir do bairro Cavalhada, pouco habitado, para o tumulto das ruas centrais da capital, era considerado uma viagem ao Primeiro Mundo, com direito a álbum de fotos da experiência.
Talvez tanto mimo distribuído em tão reduzido espaço de tempo. Talvez pequenas combinações de comer frutas e verduras, de permissão para dormir mais tarde, de ganhar adereços e enfeites tão femininos. Ou a liberdade para atacar as guloseimas, como as balas azedinhas durante a sessão de cinema, no Vitória, ali na Avenida Borges de Medeiros, onde fomos assistir ao filme intitulado “Um dia se sol” e que me rendeu vales de lágrimas. Ou a deliciosa banana split, no lanche da tarde, depois da matiné, em alguma lancheria famosa do centro de Porto Alegre. Fatores que, com certeza, contribuíram para que esse período ficasse tão vivo em minha lembrança.
Até mesmo os programas que eu classificava, no século passado, como enjoados e enfadonhos, tornavam-se atrativos e dignos de saudades nos dias atuais. Como um chá oferecido na casa de uma prima da minha tia/madrinha, em um imponente apartamento na Rua 24 de Outubro, onde as conversas de família eram intercaladas por tortas e sucos diversos. Como os passeios ao final da tarde no carro zero quilômetro do meu padrinho para conhecer mais a cidade. Como a visita rápida aos vizinhos do prédio na Rua Demétrio Ribeiro para pedir uma colher de farinha de trigo ou uma xícara de açúcar para terminar o bolo.
Aliás, minha tia/madrinha era uma cozinheira de mão cheia e embora tivesse uma ajudante, costumava transitar na cozinha com maestria e preparar a melhor carne de panela que eu já comi, o bife à milanesa mais macio que já conheci, o arroz mais soltinho de todos os gourmets ao meu redor. No setor de doces, então, fazia um pudim de leite doido de tão saboroso, uma ambrosia que não enjoava e uma geladinha colorida com creme de leite como ninguém. Em compensação, me obrigava a comer os seus quitutes com berinjela, que eu sempre odiei. Mas fazia parte do trato. Eu só teria acesso às guloseimas e demais bobagens que fizesse uma alimentação balanceada.
Depois, o tempo foi galopante e atropelado pelos compromissos rotineiros de madrinha e afilhada. E as férias tornaram-se menores. E o bairro Cavalhada passou a ser mais civilizado. E a afilhada queria gastar as férias com suas amigas adolescentes. Ou então a madrinha precisava dedicar mais atenção aos seus filhos, mais do que adolescentes. E, por razões que não sabemos enumerar, as tais férias maravilhosas e baratas nunca mais se repetiram.
Hoje, entulhamos os nossos filhos com tantos compromissos domésticos que dividimos da casa ou com diversas tarefas extra-classe, como o inglês ou outras línguas, o cursinho ou a natação, que eles só querem mesmo é descansar quando chega o período das férias escolares. São apenas 10 dias ou uma única semana em que os pimpolhos ou os adolescentes rebeldes sem causa pedem para dormir até tarde, ficar lagarteando na cama e não pensar em mais nada. Alguns, mais abastados financeiramente, deslocam-se para as maravilhas da Disney ou a tropicália alcoólica de Porto Seguro. E voltam para o recomeço das aulas mais cansados e exaustos do que quando saíram.
Posso andar muito saudosista ou me contentar com pouco. Mas penso que deveria ser instituído como o programa oficial de férias aos menores de 15 anos, uma semana na casa das madrinhas, avós e outros parentes próximos e carinhosos. Algo bem básico. Que não exige grandes planejamentos e enormes quantias de dinheiro. Para nunca mais se esquecer. Porque ser feliz é tão fácil.

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