Qual é o limite que tu toleras do teu candidato?
Até onde tu estás disposto a ir para defendê-lo? Quais erros tu aceita? Quais mentiras tu perdoas? Quantas meias-verdades tu engoles? Quanto de arrogância, de desrespeito, de distorção de fatos tu estás disposto a suportar em nome de um voto?
A pergunta parece simples, mas talvez seja uma das mais importantes que a gente deveria fazer antes de escolher alguém para governar um município, um estado ou um país.
Em 1990, eu tinha 17 anos e fui assistir a um comício do Alceu Collares, em Alegrete, na esquina da Gaspar Martins. Quando ele desceu do carro, várias pessoas foram abraçá-lo. Entre elas, havia um homem negro, aparentemente em situação de rua ou em extrema pobreza.
Eu vi a cena de muito perto.
O homem tentou abraçar Collares. Ele inicialmente o recebeu, mas, quando o abraço continuou, o empurrou e fez gestos grosseiros para afastá-lo.
Foi rápido. Talvez para muita gente tenha sido um detalhe. Para mim, ficou.
E, mesmo tendo visto aquilo, eu votei nele. Isso me incomoda até hoje.
Depois, durante o governo, fui percebendo outros traços daquele comportamento. A arrogância, a dificuldade de ouvir, a convicção de que suas próprias ideias estavam acima do bom senso e, principalmente, a disposição de sustentar determinadas decisões mesmo quando elas provocavam enormes problemas para a população.
Um dos exemplos foi o calendário rotativo das escolas estaduais, uma medida que provocou enorme desgaste, especialmente entre os professores. A Secretaria de Educação era comandada por Neuza Canabarro, sua esposa, e Collares comprou politicamente aquela briga. A ideia foi defendida durante muito tempo, mesmo diante das críticas e dos problemas que provocava.
Hoje, olhando para trás, penso que talvez aquela cena na esquina da Gaspar Martins tenha sido mais importante do que eu imaginava aos 17 anos.
Porque não estou dizendo que um gesto isolado define uma pessoa. Não define.
Mas pequenos gestos revelam traços.
É na pequena arrogância. Na pequena mentira. Na história inventada. Na informação convenientemente omitida. Na meia-verdade. Na maneira como alguém trata quem não pode lhe oferecer nada em troca. Na forma como reage quando é contrariado. Na incapacidade de reconhecer um erro.
É ali, muitas vezes, que a gente começa a enxergar quem está diante de nós.
Nas últimas semanas, assistindo aos debates entre os candidatos ao governo do Rio Grande do Sul, tenho pensado muito nisso.
Tem sido possível perceber distorções de números e fatos, propostas apresentadas quase sempre como frases de efeito, sem explicar de onde sairão os recursos ou como serão executadas, e uma tentativa, de diferentes lados ideológicos, de diminuir conquistas que pertencem ao povo gaúcho como um todo.
Não estou falando de um candidato específico. Nem de um lado específico.
Estou falando de uma lógica que parece ter se tornado comum na política: se a informação ajuda o meu candidato, ela é verdadeira; se prejudica, é mentira. Se o adversário erra, é imperdoável; se o meu erra, existe uma justificativa. Se a promessa é feita pelo outro, é demagogia; se é feita pelo meu, é esperança.
E assim vamos relativizando tudo.
Precisamos entender que uma eleição não é uma guerra. O Estado não é um território a ser conquistado. E que, no final de tudo, somos nós mesmos que ficamos à mercê do caráter e do comportamento de quem elegemos.
A gente cobra honestidade do político, mas estabelece uma espécie de tabela de tolerância para o nosso próprio candidato.
A mentira do outro é caráter. A mentira do meu é estratégia.
A arrogância do outro é despreparo. A arrogância do meu é personalidade forte.
A promessa do outro é populismo. A promessa do meu é compromisso.
E assim vamos relativizando tudo.
Até que elegemos alguém que já havia mostrado, durante a campanha, exatamente aquilo que depois nos incomoda quando chega ao poder.
Não estou dizendo que um candidato precisa ser perfeito. Ninguém é.
Governar é errar também. É tomar decisões difíceis. É mudar de ideia quando os fatos demonstram que uma decisão estava errada. É reconhecer que uma promessa não poderá ser cumprida. É admitir que o adversário tinha razão em determinado ponto.
Talvez seja justamente isso que devêssemos observar.
Não apenas aquilo que o candidato promete, mas como ele se comporta quando precisa explicar o que não consegue cumprir.
Como trata quem discorda dele.
Como trata quem é mais pobre, mais frágil ou menos poderoso.
Como reage quando é confrontado com um número que não favorece seu discurso.
Como lida com a verdade quando a verdade atrapalha sua eleição.
Porque um candidato que mente para conquistar o nosso voto está nos dando uma informação importante sobre o que poderá fazer depois de conquistá-lo.
E aí volto à pergunta do começo.
Até onde tu toleras o teu candidato?
Quanto de mentira é aceitável para ele ser eleito?
Quanto de arrogância? Quanto de desrespeito? Quanto de distorção? Quanto de promessa vazia? Quanto de meia-verdade?
Talvez a pergunta mais importante antes de apertar o botão da urna não seja se aquele candidato pensa como nós.
Talvez seja descobrir o que estamos dispostos a perdoar nele simplesmente porque queremos muito que ele ganhe.
Porque, no fim, o candidato que a gente escolhe também diz muito sobre os limites que a gente está disposto a aceitar.


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