Um dia eu desejo (juro por tudo que é mais sagrado e por todas as crenças) deixar de falar e escrever sobre este assunto. Ou por que não estarei mais contribuindo para este portal (o que é perfeitamente possível já que nada é eterno). Ou por que tal tipo de crime terá deixado de existir ou seus números reduzidos. Prefiro apostar na segunda alternativa. Que no futuro (e que eu esteja viva para presenciar) as mulheres não sejam mais mortas pelo simples fato de serem mulheres. Mas, por enquanto, os dados mostram que meu desejo ainda é uma utopia muito distante de ser realizada.
Os feminicídios seguem num ritmo preocupante no País, no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. Tipificado como crime em 9 de março de 2015, é o homicídio cometido contra uma mulher por razões da condição de sexo feminino e prevê uma pena de reclusão de 20 a 40 anos. E apesar disso, nós, mulheres seguimos sendo mortas.
Um Dossiê divulgado pelo Observatório Lupa Feminista intitulado “Há Vida por Trás dos Dados” indica que, de 2021 a 2025, a média no Estado foi de 96 casos por ano. Somente em 2025, o monitoramento identificou 92 feminicídios no Rio Grande do Sul, 264 tentativas e que resultaram em 116 órfãos em decorrência destes crimes, com 50,9% menores de 18 anos. Número que é superior ao informado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), que apontou 80 feminicídios no ano passado.
O levantamento destaca que por trás das estatísticas de feminicídio existem vidas interrompidas, famílias marcadas pela violência, mulheres que sobrevivem e histórias que nem sempre integram os registros oficiais. Um dos objetivos do Dossiê é transformar dados em conhecimento e fortalecer o enfrentamento à violência contra as mulheres. “Há vida por trás dos dados. Há histórias que precisam ser contadas”, reforça o monitoramento, que pode ser acessado no link: https://drive.google.com/file/d/1sPlHaUDjeGIExNSlWI7eXfZobvQSuxS/view.
E Porto Alegre não pode se orgulhar de seus números de feminicídios. De janeiro a agosto de 2026, a capital gaúcha registra 11 casos deste crime. Mulheres que foram assassinadas pela questão de gênero. Em sete destes casos, os suspeitos eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas, confirmando que o maior perigo se encontra no ambiente doméstico. Das mulheres mortas, três tinham Medida Protetivas. Cada vez torna-se mais urgente o combate a violência contra as mulheres.
Parem de nos matar. Nos deixem viver. Aceitem o fim dos relacionamentos. Entendam que a roupa não nos define e podemos usar a vestimenta que quisermos. Que temos o direito de sair sozinhas. De estarmos em todos os lugares sem sermos assediadas. E não sermos perseguidas e ofendidas por isso. Viva nos queremos.


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