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Atenção demais para Arnold?

      A pergunta é do USA Today na edição desta terça-feira 12 de agosto. Os demais candidatos ao governo da Califórnia reclamam do excesso de …

      A pergunta é do USA Today na edição desta terça-feira 12 de agosto. Os demais candidatos ao governo da Califórnia reclamam do excesso de divulgação dado ao Exterminador do Futuro (aliás, o título do filme dá ótimo argumento aos marqueteiros inimigos). O jornal promove uma enquete junto aos leitores, mas nem precisava. É claro que Arnold Schwarzenegger terá toda a mídia que desejar, para o bem e para o mal. Se for mal administrada, a superexposição poderá virar gol contra, mas dificilmente isto ocorrerá. O eleitor americano gosta de heróis. Elegeu Ronald Reagan, astro de filmes de cowboy, e tipos durões como os Bush. Galãs como Kennedy têm preferência, mas são raros na política americana. Al Gore até que se aproxima disso. Entre ele e um durão autoproclamado como Bush Júnior fica difícil, tanto que Gore, o primo mais jovem e menos brilhante de Gore Vidal, teria vencido as eleições não fosse um suspeitíssimo deslize da cada vez menos exemplar democracia americana.

      Agora, convenhamos, fica difícil dar pouco espaço a Arnold. O público adora celebridades, embora nem sempre esteja disposto a confiar-lhe o primeiro cargo da Nação. Neste caso, se trata de um astro de primeira grandeza cujos papéis, de Conan ao Exterminador, o identificam com bravura, vitória e o lado do bem. Até que ponto tal associação, ainda que involuntária, pode pesar na hora do voto, é discutível, mas que ela representa um prato apetitoso para a mídia não há dúvida. Quem acompanha um pouco a política americana e sabe o quanto os candidatos costumam ser opacos (exceto os esquisitos, mas estes ninguém leva a sério), entende o furor causado por um ator-herói. Ainda mais na Califórnia, terra ensolarada, de alto astral, que abriga as mansões de Beverly Hills e, acima de tudo, os estúdios de Hollywood. Um ator faz mais sentido por lá do que em qualquer outro lugar do mundo. Se eu tivesse de disputar com Arnold provavelmente desistiria ou ficaria indignado com a divulgação que ele recebe. Não tendo, a compreendo perfeitamente.

      Quando Sílvio Santos candidatou-se a presidente do Brasil uma das principais críticas, além de sua total ausência anterior na política, era o fato de que ele tinha nas mãos uma rede de televisão, argumento questionável, pois muitos candidatos já tiveram redes nas mãos sem jamais terem sido acionistas de uma, mas esta é outra história. Sílvio Santos seria notícia o tempo todo, pois é uma celebridade. Imaginemos Pelé ou Roberto Carlos candidatos. A mídia faria o quê? Por mais que a legislação ou os códigos de ética garantam direitos iguais durante uma disputa eleitoral, não haveria muito como escapar a certas armadilhas. A mídia brasileira certamente não os consideraria bons candidatos, bem ao contrário, mas daí a ignorar sua celebridade e o índice de leitura ou audiência que garantem é um passo complicado. Talvez os veículos concedam a Arnold promoção demasiada, mas quem vai abrir mão de fazê-lo?

* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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Autor

Eliziario Goulart Rocha

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