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Au revoir, Colin Field

“Quando eu sonho em uma vida no céu, as coisas acontecem no bar do Ritz”. Ernest Hemingway. *** Foi muita audácia de minha parte …

“Quando eu sonho em uma vida no céu, as coisas acontecem no bar do Ritz”.

Ernest Hemingway.

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Foi muita audácia de minha parte – entrar no Hemingway Bar do Hotel Ritz, com menos de 50 francos no bolso e pedir um Very Dry Martini ao homem atrás do balcão. Ele sorriu e me serviu como se eu fosse um cliente da casa. Mais tarde soube de quem se tratava – nada menos do que Colin Peter Field, o mais celebrado barman de Paris, que preparava drinques para os muito ricos e famosos que habitavam as suites debruçadas sobre a Place Vendôme. Eu era  muito jovem e estava começando a tomar lições de mundo.

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Quando Colin Field começou no Ritz, Coco Chanel não morava mais na suite que ostenta seu nome e Ernest Hemingway havia deixado Paris para sempre. Mas o bar herdou seu nome e ainda hoje guarda nas paredes a nostálgica memorabilia de seu mais famoso cliente. O lugar não lembra um típico bistrot parisiense. Ao contrário, tem as características do verdadeiro gentlemen’s bar, que tanto poderia estar em Mayfair ou na Fifth Avenue. E sua clientela não lembra os habituais dos bistros do Boulevard Saint Germain – a maioria são executivos seniors de multinacionais e damas vestindo o melhor de Dior. Os turistas carregando câmeras são cortesmente advertidos a não fotografarem os clientes. Mas poucos resistem em tirar fotos do fuzil de Hemingway ou da cadeira com a placa com seu nome.                      

Mas, mesmo com seu clima nostálgico, as coisas mudaram e o cocktail favorito do escritor já não é mais o mais pedido. Perdeu    o primeiro lugar para o Serendipity, inventado por Colin Field em 1982 e que ele descreve como “La France dans un verre”. Como todos os grandes cocktails, sua receita é bem simples: Calvados, suco de maçã e Champagne. Este inglês com jeito francês parece conhecer todas as antigas histórias do Ritz. Como o episódio famoso de Agosto de 1944, quando Ernest Hemingway e seus amigos reabriram o bar, fechado durante a guerra. No grupo de “libertadores”, o fotógrafo Robert Capa e o escritor A.E. Hotchner. Êste, mais tarde, escreveria na “Vanity Fair” que, além de muitas Magnum de Moët & Chandon, o grupo teria consumido nada menos que 51 Dry Martinis. Segundo Hotchner, eles esperaram por horas que o libertador de Paris, o general Philippe Leclerc, comandante das tropas aliadas, viesse fazer-lhes companhia. Como o general não chegava, Ernest Hemingway invadiu a adega do Ritz e requisitou as Magnum.

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Mas, como a vida não é perfeita, os fiéis clientes de Colin Field devem estar à procura de um outro balcão para matar a sede. Enquanto o badalado barman agora prepara cocktails na Primeira Classe da Air France, ou no The Dorchester, em Londres, o Hemingway Bar permanece fechado, pois o Ritz enfrenta sua primeira grande reforma em mais de 30 anos. Comenta-se que a reforma teria sido motivada pela concorrência crescente dos vizinhos Le Bristol e Le Royal Monceau, além da chegada dos luxuosíssimos The Peninsula e The Mandarin. Até se comenta que os novos hotéis fizeram propostas milionárias para ter Colin Field pilotando suas coqueteleiras.     

Já os veteranos frequentadores das banquetas e poltronas de couro verde devem estar se perguntando como será o novo Hemingway Bar, sem Colin Field e suas histórias, que ficam sempre melhores depois da terceira rodada. Desde a noite da  inauguração, em 1898, o Ritz sempre atraiu personalidades de várias magnitudes, como Marcel Proust, Oscar Wilde, George Bernard Shaw, Cole Porter, Scott e Zelda Fitzgerald, Humphrey Bogart, Audrey Hepburn,  Ingrid Bergman, Roberto Rosselini e Graham Greene, sem falar   em príncipes russos e ditadores destronados, cujos nomes ninguém mais lembra.

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A pergunta que fica: sem Colin Field no balcão, quem vai contar do cocktail-party para 100 celebridades de Hollywood, promovido por Elsa Maxwell, em homenagem a Rita Hayworth e o Príncipe Aly Khan, com Fritz Kreisler convocado para tocar músicas de Cole Porter? Dizem que, quando chegou a conta, a colunista lembrou que estava sem dinheiro e simplesmente depositou na bandeja seu bracelete Cartier de diamantes e esmeraldas. Ou, lembrar de quando Cole Porter, em sua mesa favorita, rabiscou em um guardanapo:

“The world admits, bears in pits do it, 

Even Pekingeses at the Ritz do it,

Let’s do it, let’s fall in love.”

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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