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Ausências de Primavera

Por José Antônio Moraes de Oliveira

” A primavera chegará, mesmo que ninguém mais 

saiba seu nome, nem acredite no calendário, 

nem possua jardim para recebê-la”. 

Cecília Meireles.

A literatura romântica nos proporciona deliciosas peças em prosa e verso sobre as quatro estações do ano, mas sempre a Primavera aparece como a grande inspiradora. Como fez o inglês William Wordsworth, um declarado amante da estação das flores. Ele seguia de longe o exemplo do outro William -aquele sempre lembrado, o bardo de Stratford-upon-Avon:

“Sem você, eu estive ausente na primavera”.

Wiliam Shakesperare.

***

Enquanto isso, do lado do Atlântico, a grande poetisa da língua inglesa, Emily Dickinson, também se definia como perdidamente apaixonada:

“Não viverei em vão, se puder

Me salvar e partir na Primavera”.

*** 

Poucos leitores norte-americanos teriam a capacidade de  associar o nome William Sydney Porter a um grande escritor. Mas se mencionarmos o nome O’Henry, certamente que muitos identificaram um dos mais brilhantes autores de estórias curtas na literatura dos Estados Unidos. William Sydney Porter fracassou em todas as profissões que tentou, desde balconista, guarda-livros, professor, jornalista e até vaqueiro no Oeste. Nada dava certo para ele, que perambulou pela América Central e pelo interior dos Estados Unidos.  

Começou a escrever aos 42 anos e tornou-se conhecido de costa-a-costa quase que da noite para o dia. Seus 300 contos são estórias curtas, marcadas por coincidências estranhas e personagens difíceis de esquecer. Sempre em paisagens outonais e invernais, mas temperadas por comoventes recordações das primaveras de sua infância.

*** 

O argentino Jorge Luis Borges tinha por costume passar algum tempo – às vezes por uma hora ou mais – à janela do apartamento na Calle Maipu, em Buenos Aires. Cego, não podia apreciar as evidências de primavera nos plátanos coloridos da Avenida Avellaneda, que balançavam ao vento austral. A seguir, se sentava junto à lareira e ditava textos e poemas que levariam emoção aos seus leitores. O jornalista portenho Jorge Monteleone que o entrevistou dizia que ele recordava em minúcias as árvores e flores das praças de Buenos Aires, por onde caminhava para aguardar a chegada da Primavera. E ainda lembrava que, em uma tarde de Setembro, esquecera no Café Tortoni um caderno de notas com versos de Rainer Maria Rilke, um de seus poetas favoritos.

*** 

Quando jovem, Edward Hopper, o mais intrigante pintor norte-americano, viajou à França em busca de inspiração. Muitos jovens artistas daquela geração fizeram o mesmo, sonhando em conhecer os grandes mestres impressionistas que causavam furor nas galerias de Paris. Mas não Edward Hopper que, perguntado sobre qual pintor famoso havia conhecido, respondeu:

“ – Nenhum. Ouvi falar de Degas, Matisse e Pablo Picasso, mas preferi os cafés e praças, para observar pessoas e paisagens”.

E acrescentou que a Paris dos impressionistas não lhe causará nenhum impacto maior. No entanto, quando visita o Rijkmuseum em Amsterdam, se fascinou pele “A Ronda Noturna” de Rembrandt, passando dias inteiros diante da grande pintura. 

Dez anos mais tarde, ele pintaria sua primeira obra-prima, “A Casa perto da Linha Férrea”, que mostra apenas um casarão e uma linha de trem, uma perfeita evocação da solidão humana. Contrariando este tema sombrio – e com o qual se consagraria com o clássico “Os Falcões da Noite” – Edward Hooper pintou uma série de quadros que retratam as manhãs luminosas de primavera e verão de Cape Cod.

***  

Por seu lado, os grandes impressionistas franceses que Edward Hooper ignorou foram sublimes ao pintar cores e ares da Primavera. O mais apaixonado dentre eles, com certeza foi Claude Monet, que afirmava que a Natureza era sua fonte de inspiração. Ele pintava nos jardins da casa em Giverny, onde criava cores e capturava sutilezas de luz. 

Existe uma famosa série de pinturas com a primeira esposa de Monet em paisagens campestres ou primaveris. Uma das mais inspiradas retrata a bela Camille Doncieux lendo um livro sobre um campo de lilases.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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