| A bandeja de banana em cima do microondas, com sua seqüência de pintas em direção ao escurecimento total, me atrai diariamente. Desde que saímos juntos da fruteira da esquina tem sido um convívio impressivo. E a impressão é que eu e essas bananas estamos aqui apenas para cumprir mais uma etapa fundamental de duas espécies, animal e vegetal. O primata em mim a quer acima de todas as frutas. Um desejo ancestral que evoluiu da floresta até o súper do bairro Floresta. Enquanto faço o estripetise amarelo e devoro essa massa esbranquiçada, as analogias despencam. Todo ser humano – infantil não-reprimido, juvenil apaixonado ou senil eufórico – planta bananeira. A maioria de nós fica embananado à toa (com esta crônica, por ex). As pessoas têm pencas de problemas reais e dúzias e dúzias de encucações imaginárias. Quando rola uma paquera e a paquera evolui, vira um cacho. E a trilha sonora apropriadamente pode ser a Bananeira do João Donato, funkeada pelo Sérgio Mendes. Sempre que viajo até Santa Catarina, o king-kong dentro de mim busca lembranças primevas assim que a paisagem montanhosa perfila bananais pelas encostas. O guri simiesco que fui recorda as estufas onde ia pedir sacolas de frutas passadas. Me vem à boca o gosto da bananada caseira, pegajosa, queimando dedos provadores, arroxeando na colher de pau, até pretear e asfaltar a fatia de pão nas manhãs da infância. Junto com o abacate e o caqui, a banana forma meu abc frutífero favorito. E é meu ícone visual predileto, o design mais tipicamente brasileiro, sem a menor conotação com subdesenvolvimento. Eu a reverencio na fruteira e no liquidificador, no sorvete, em rodelas sobre o feijão com arroz, na estampa de tecidos e na pintura do Antonio Henrique Amaral, naquele cartaz da banana frankenstein de uma bienal dos 90´s, nas charges batidas com o clichê das cascas no chão das metáforas políticas, e, superior a tudo, no poema-homenagem do poeta Ferreira Gullar, que contemplou bananas amadurecendo até a observação virar versos maduros – poesia de comer. Tão curvilíneas e coloridas, adoro a banana. Eu a elejo como uma musa vitamínica e como o exemplo máximo da educação na natureza, ao contrário dos que largam armadilhas escorregadias nas calçadas. Pois enquanto os indivíduos se esbarram e dão encontrões uns nos outros, nunca se viu uma casca de banana tropeçar em outra, se viu? |
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| Toda vez que desaba um aguaceiro repetino ou chuvisca por alguns instantes, logo aparece alguém ao nosso lado para esclarecer o fenômeno meteorológico: – É só uma nuvem. Mas, não é sempre? |
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