Antoni Plàcid Guillem Gaudí Cornet era dono de um temperamento errático, às vezes explosivo – às suas costas, os artesãos que trabalhavam na Sagrada Família invocavam o provérbio catalão: “Gent de camp, gent de lamp”, uma referência pouco elogiosa aos camponeses da Tarragona. Eram as contradições deste visionário, um homem áspero, mas de profunda religiosidade. Que se irritava quando, à vista de seu cabelo louro e olhos azuis, alguém indagava se era um nórdico. Com rudeza, retrucava que era catalão, um homem mediterrâneo e se orgulhava disso.
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Enquanto estava vivo, Antoni Gaudí teve escasso reconhecimento. As exceções foram seus mecenas ricaços – tão visionários como ele, que o apoiaram e lhe confiaram ambiciosos projetos. Considerado um excêntrico para a época, foi um dos líderes da Renaixensa catalã, o movimento nacionalista e anti-castelhano. Ignorado por quase 30 anos, foi redescoberto por historiadores e arquitetos, que lhe dedicaram incontáveis livros e teses. E, nos dias de hoje, é reverenciado pelos que visitam a Catalunha e se encantam tardiamente com seu gênio transbordante. Um biógrafo escreveu que os edifícios gaudianos criaram uma complexa geometria, com aparência de algo adequado às leis da natureza. E que, de forma curiosa, configuram uma sintonia com as contradições da personalidade do arquiteto, já que sua vida profissional e a pessoal se tornaram indistinguíveis, uma da outra.
O estilo de Gaudí atravessou diversas fases. Do vitoriano, evoluiu para as massas geométricas – nunca usadas antes em superfícies de pedra ou tijolo, painéis cerâmicos de cores vivas e estruturas de metal com motivos florais ou répteis. O resultado, segundo quem entende, foi um retorno ao mourisco ou mudéjar, o amálgama da arte muçulmana com a cristã – e que só se encontra na Espanha.
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As contradições da vida de Antoni Gaudí também o acompanharam na hora da morte. Seu atropelamento por um trolley-car, no centro de Barcelona, na esquina da Gran Via com o Carrer de Bailén, foi um evento desimportante, igual à morte de um mendigo anônimo. Como evitava as câmeras e não frequentava as páginas dos jornais, não foi reconhecido e, por pouco, não o enterram como indigente.
No entanto, três dias depois, a cidade parou e metade de sua população vestiu-se de negro, para acompanhar a procissão fúnebre daquele desconhecido.
Hoje, Antoni Gaudí está enterrado na cripta do Templo Expiatório da Sagrada Família, a monumental obra à qual dedicou a maior parte de seus 74 anos de vida. Um dos muito pequenos/grandes mistérios da contraditória vida de Gaudí diz respeito à sua saúde – sofria de severo reumatismo desde criança, o que limitava suas atividades físicas. No entanto, nos 43 anos em que trabalhou na obra, subia e descia diariamente as longas escadas que levam às altas torres da catedral.
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Nos anos que se seguiram à sua morte, outros gênios se renderam ao mito Gaudí e lhe dedicaram frases lapidares, como a de Frank Lloyd Wright:
“Foi um homem do Renascimento”.
Ou a de Walter Gropius, o grande arquiteto alemão:
“A arquitetura de Gaudi aponta para a Eternidade”.
Por sua vez, ao visitar Barcelona, Le Corbusier escreveu:
“Esta arquitetura não nasceu em uma prancheta. É fruto de caráter, um trabalho de força, de fé manifestada durante uma vida de gênio. De um homem que esculpia a pedra com os olhos.”
E Salvador Dali, outro catalão de gênio, arrematou:
“Suas torres são bandeiras de pedra”.


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