Colunas

Bandeiras de pedra

Antoni Plàcid Guillem Gaudí Cornet era dono de um temperamento errático, às vezes explosivo – às suas costas, os artesãos que trabalhavam na Sagrada …

Antoni Plàcid Guillem Gaudí Cornet era dono de um temperamento errático, às vezes explosivo – às suas costas, os artesãos que trabalhavam na Sagrada Família invocavam o provérbio catalão: “Gent de camp, gent de lamp”, uma referência pouco elogiosa aos camponeses da Tarragona. Eram as contradições deste visionário, um homem áspero, mas de profunda religiosidade. Que se irritava quando, à vista de seu cabelo louro e olhos azuis, alguém indagava se era um nórdico. Com rudeza, retrucava que era catalão, um homem mediterrâneo e se orgulhava disso.

***

Enquanto estava vivo, Antoni Gaudí teve escasso reconhecimento. As exceções foram seus mecenas ricaços – tão visionários como ele, que o apoiaram e lhe confiaram ambiciosos projetos. Considerado um excêntrico para a época, foi um dos líderes da Renaixensa catalã, o movimento nacionalista e anti-castelhano. Ignorado por quase 30 anos, foi redescoberto por historiadores e arquitetos, que lhe dedicaram incontáveis livros e teses. E, nos dias de hoje, é reverenciado pelos que visitam a Catalunha e se encantam tardiamente com seu gênio transbordante. Um biógrafo escreveu que os edifícios gaudianos criaram uma complexa geometria, com aparência de algo adequado às leis da natureza. E que, de forma curiosa, configuram uma sintonia com as contradições da personalidade do arquiteto, já que sua vida profissional e a pessoal se tornaram indistinguíveis, uma da outra.

O estilo de Gaudí atravessou diversas fases. Do vitoriano, evoluiu para as massas geométricas – nunca usadas antes em superfícies de pedra ou tijolo, painéis cerâmicos de cores vivas e estruturas de metal com motivos florais ou répteis. O resultado, segundo quem entende, foi um retorno ao mourisco ou mudéjar, o amálgama da arte muçulmana com a cristã – e que só se encontra na Espanha.

***

As contradições da vida de Antoni Gaudí também o acompanharam na hora da morte. Seu atropelamento por um trolley-car, no centro de Barcelona, na esquina da Gran Via com o Carrer de Bailén, foi um evento desimportante, igual à morte de um mendigo anônimo. Como evitava as câmeras e não frequentava as páginas dos jornais, não foi reconhecido e, por pouco, não o enterram como indigente.

No entanto, três dias depois, a cidade parou e metade de sua população vestiu-se de negro, para acompanhar a procissão fúnebre daquele desconhecido.

Hoje, Antoni Gaudí está enterrado na cripta do Templo Expiatório da Sagrada Família, a monumental obra à qual dedicou a maior parte de seus 74 anos de vida. Um dos muito pequenos/grandes mistérios da contraditória vida de Gaudí diz respeito à sua saúde – sofria de severo reumatismo desde criança, o que limitava suas atividades físicas. No entanto, nos 43 anos em que trabalhou na obra, subia e descia diariamente as longas escadas que levam às altas torres da catedral.

***

Nos anos que se seguiram à sua morte, outros gênios se renderam ao mito Gaudí e lhe dedicaram frases lapidares, como a de Frank Lloyd Wright:

“Foi um homem do Renascimento”.

Ou a de Walter Gropius, o grande arquiteto alemão:

“A arquitetura de Gaudi aponta para a Eternidade”.

Por sua vez, ao visitar Barcelona, Le Corbusier escreveu:

“Esta arquitetura não nasceu em uma prancheta. É fruto de caráter, um trabalho de força, de fé manifestada durante uma vida de gênio. De um homem que esculpia a pedra com os olhos.”

E Salvador Dali, outro catalão de gênio, arrematou:

“Suas torres são bandeiras de pedra”.

Imagem

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.