Não me recordo da data precisa em que ouvi, pela primeira vez, o apelido que se transformou em nome. Mas creio que remonta a 1983, ano em que iniciara meu primeiro emprego com carteira assinada em um veículo de comunicação (Jornal do Comércio). Existiu um movimento grevista na Empresa Jornalística Caldas Júnior, motivado pelos atrasos nos pagamentos dos salários dos funcionários. Meu pai, empregado da Caldas Júnior desde o final da década de 60, com muitas despesas para pagar, aparecia como um dos grevistas. Nas nossas conversas, ele sempre citava e elogiava inúmeras vezes uma colega dele que era parceira em todas as mobilizações. Ele se referia à Bela Hammes.
Mais tarde, não lembro a data (1984 ou 1985), ainda no Jornal do Comércio (JC), conheci a Bela, da qual me pai tanto falava. Foi empatia à primeira vista. Ela foi contratada para uma vaga de repórter, mas ficou pouco tempo. Em seguida, aceitou um emprego no Estado de São Paulo, em Brasília, e deixou aquela redação do JC, que parecia uma garagem mais arrumada. Ao chegar ao seu primeiro dia no JC, Bela exclamou: “ah, tu que é a filha do Fernando?”, confirmando que meu pai falava de mim nas conversas entre eles durante a greve da Caldas Júnior.
A convivência que fermentou a amizade aconteceu quando Bela ingressou na Zero Hora (ZH), em 1988, onde eu já atuava desde setembro de 1986, na Editoria de Economia. As nossas conversas, então, não se limitaram somente aos comentários sobre os nossos pais. Nos corredores da Redação, recém inaugurada no terceiro andar de ZH, a troca incluía receitas culinárias, idéias de pauta (naquela época, Bela ainda era repórter), dicas de livros e filmes. Formamos um grupo de casais jornalistas e organizávamos encontros mensais na casa de alguém. Quando era no seu apartamento, sempre nos oferecia um turbante (sua especialidade culinária) e a conversa não tinha hora para acabar.
Em outubro de 1993, experimentei a tal caridade e desprendimento, qualidades sempre visíveis nela. Totalmente abalada pela interrupção da primeira gravidez de gêmeos, ganhei da Bela um apoio financeiro e emocional que jamais havia recebido de qualquer amiga ao longo dos meus 33 anos (idade da época). Já como editora dos cadernos de economia, Bela abandonou a Redação de Zero Hora na tarde de uma quinta-feira movimentada para me entregar, no hospital, um bolo de dinheiro arrecadado entre os colegas para cobrir o que o plano de saúde não pagava e um punhado indescritível de carinho.
Com o nascimento da minha filha Gabriela, passei a privar da experiência da Bela como mãe. Marinheira de primeira (e única) viagem, costumava entrar na Redação desesperada com dúvidas maternais e derramando lágrimas de agonia. Beloca me levava para o bar do jornal, entre um cigarro e outro tragado loucamente, repassava dicas de quem já era mãe de dois meninos. Com uma voz que se fazia um calmante quando era necessário aliviar alguma dor de uma amiga, ela me trazia de volta à realidade e eu podia retornar, então, ao meu trabalho diário.
Belíssima foi incansável quando fui dispensada de ZH em fevereiro de 1997. Não sossegou enquanto não me arrumou um emprego numa Assessoria de Comunicação. Era ela assim. Incansável no apoio. Insistente na amizade. Solidária nos momentos ruins. Parceira nos ritos de felicidade. Alegria sempre escrachada. Gargalhada que ecoava. Seguimos caminhos distintos depois que sai de ZH. Ela continuou na iniciativa privada, consolidando uma carreira como colunista de economia (embora sempre com a veia de repórter alerta) e eu persisti na Assessoria de Imprensa governamental. A amizade permaneceu, alimentada pelos telefonemas, e-mails e presentes trocados nos aniversários.
Em 9 de junho deste ano, ela não telefonou. Nem no dia seguinte. Deixei um recadinho no Face book, alertando que eu considerava que meu aniversário não tinha ocorrido, pois ficara sem sua lembrança. Ela disse estar com um problema de saúde e que ligava em breve. Mas não telefonou. Em julho, fui alertada pelas redes sociais do movimento #TâmoContigoMamãe, e fiquei sabendo da doença. Imediatamente postamos (eu e Gabriela) fotos aderindo à campanha e conversei com ela ao telefone. Bela disse que descobriu a doença no dia do meu aniversário, mas que iria se tratar, que era forte e ainda iria conhecer os netos.
Chorei muito e desabafei com a Gabriela: “filha, a Bela está muito doente, eu preciso visitá-la”. Veio uma gripe que me impediu a aproximação porque ela poderia estar com a imunidade baixa. Veio a Expointer e a necessidade de um horário especial na cobertura das ações do Governo do Estado. Veio o primeiro turno e as horas de folga foram ocupadas na militância. Na fila da churrascaria, no domingo, 5, aguardando a vez de ser chamada, comentei com Gabriela. “Esta semana, preciso ver a Bela de qualquer jeito”. Não deu tempo. A notícia de sua morte silenciou meu coração no final da tarde.
Beloca: desculpe minha ausência neste final da tua jornada. Belíssima: talvez eu não tivesse, nesta ocasião, amor suficiente para te repassar, não na dose que tu merecias. Belinha: até breve.

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