Colunas

Bocejos húngaros

Fu Lana leu Budapeste emprestado. Isto significa que não pode voltar a ele de vez em quando, nem para checar o filme. Não lembrava …

Fu Lana leu Budapeste emprestado. Isto significa que não pode voltar a ele de vez em quando, nem para checar o filme. Não lembrava de haver tanta mulher nua na história. Tradição do cinema brasileiro? Alguém já disse: embatucou a fita? Bota mulher pelada.

Fu Lana aprendeu com uma amiga poeta e contista: estamos cada vez menos pacientes, portanto se o filme não a conquistar em pouquíssimo tempo, levanta e sai. Tempo e dinheiro colocamos onde quisermos. Não devemos ficar à mercê de uma obra que nos desagrada.

Porém, Fu Lana não foi tão radical. Deu tempo ao filme. Ver a cidade de Budapeste, tão linda e tão amarela, como escreveu Chico, com suas andorinhas e luzes em diversas cores, já valia o tempo e o pouco dinheiro investido. E todos sabem que Fu Lana tem medo de viajar. No cinema, é mais seguro.

Como José Costa, o ator Leonardo Medeiros não conquista. A narração, em sua voz, é sofrível. Passamos o tempo todo temendo que vá tropeçar nas falas. Carisma, para quem não conseguiu compreender a figura, é aquele sorriso natural e franco dos fãs, quando aparece Chico Buarque pedindo um autógrafo. É hora das celebridades se tornarem anônimas.

O livro de Chico trabalha a existência de autores que se submetem a um trabalho não reconhecido, nem sempre bem remunerado. Em um primeiro momento, aceitam ser anônimos, mas longe de diletantismos, desejam alcançar o mesmo reconhecimento pessoal e comercial dos autores para quem escrevem, que buscam falsa fama pessoal com base em textos encomendados. É a Literatura sob ponto de vista do poder.

O contraponto da fama é o Monumento ao Escritor Desconhecido, em Budapeste. Um autor, lá por 1200, viveu no anonimato e escreveu Genta Hungarorum, onde relata a história primitiva da Hungria. Era apenas um servo do Rei e não se rendeu à celebração individual. Um abnegado. Tudo o que o mercado ignoraria, hoje. Virou uma estátua imponente na capital húngara, assobrando os ambiciosos.

Um bestseller, cinco anos na lista dos mais vendidos, será substituído facilmente por outro, inclusive com a mesma capa, cores e lettering, e nem os livreiros lembrarão mais dele. Resumindo, o texto não fica. O romance Budapeste foi premiado em 2004 na Jornada de Passo Fundo e, cinco anos depois, Fu Lana já não lembra de seu exato conteúdo. Problema da leitora?

A bem da verdade, a velocidade em que se lê também foi acelerada. Há quem sugira que livros virem verbetes. A produtora do filme, Rita Buzzar, leu Budapeste em uma noite. No entanto, Fu Lana rende sua homenagem a um professor amado e poeta permanente: respeite o tempo do autor. Ele não escreveu em alguns dias. Portanto, mesmo que não se leve o mesmo tempo da criação, dê tempo às palavras. Não pule, não resuma. Leitura na diagonal é um vício. Fu Lana sofre desse mal. Atravessa os textos e por vezes não leva nada. Confunde os nomes, os atores, as ruas, as cidades. É mesmo um desrespeito ao trabalho.

Budapeste, o filme, tem cenas em que a fotografia vence totalmente. Também pudera. O diretor, Walter Carvalho, sempre diretor de fotografia e co-diretor, faz de Budapeste sua primeira direcão-solo de um filme de ficção. Com uma narrativa comovente e verdadeira, seria imbatível. Mas naquela voz de jogral, foi-se o texto.

Além do quê, para o pobre espectador, em especial o não-leitor, nem tudo parece ficar claro. Em um vem-e-vai no tempo e geograficamente, entre Brasil e Hungria, a montagem parece brusca e o ritmo do filme por muitas vezes é interrompido. Há tempo, sim, para suspiros e olhadelas no relógio. Fu Lana buscava no vizinho um olhar de compreensão pelo esforço que fazia estando ali. Tudo bem. Aparece o Chico, lá pelas tantas. Vale aquele sorriso de estímulo.

O que será que têm as atrizes brasileiras que em todos os filmes parecem pasteurizadas? Será a televisão? Será o efeito da celebridade? E elas podem pensar que a fama faz bem. No cinema, o que importa é carisma. Talento também, mas hoje fica difícil identificar.

Sobre essa dúvida fala Budapeste. Fama ou talento? Quem sinaliza? O editor, um capitalista que vira filósofo? Um escritor desconhecido, que deve assinar contratos dizendo que ele apenas digitou a obra? Leitores de sarau? Estudiosos? O pobre e massacrado leitor? Dúvida contemporânea. 

Quando de volta ao Rio, Kosta José ouve sambas em húngaro, a língua em que fala o Diabo. Pra que simplificar? O próximo livro que venha em aramaico. 

Autor

Clo Barcellos

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.