“Siempre hay algo en Buenos Aires que me gusta.
Me gusta que le guste a otras personas.
Me gusta tanto que no
Es un amor así, celoso”.
(Jorge Luis Borges).
Ele foi um devotado amante da cidade onde nasceu, frequentou bares e cafés, conviveu com preciosas figuras da literatura e da poesia argentina. Escreveu odes e poemas sobre as ruas e praças de sua cidade. E sonhava ser enterrado no mausoléu da família, no aristocrático cemitério de La Recoleta. Mas, ao invés disso, lhe foi dado repouso em um discreto jazigo em Genebra, na Suiça. Assim, talvez ele tenha sido poupado de ver a lenta dissipação do charme e elegância de Buenos Aires.
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Pode-se pensar em uma irônica e piedosa intervenção do destino, ao evitar que o autor de O Aleph presenciasse as mudanças que sofre a plácida e amável Buenos Aires, dos tempos do tango arrabalero e das longas tertútlias literárias no Café Tortoni. Nos dias de Borges, era um prazer caminhar a qualquer hora do dia ou da noite, pelas ruas do centro de Buenos Aires. Não mais. Não se passa um dia sem que os jornais noticiem as bagualadas de motoristas de táxi, que devolvem aos passageiros troco em cédulas falsas de 100 pesos.
Ou ainda, os ataques de motoqueiros nas esquinas da Calle Florida, que arrancam celulares, bolsas e mochilas de turistas desavisados. Os mesmos jornais noticiaram que as embaixadas da Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos emitiram discretos alertas aos seus executivos de negócios, para que tomem cuidados adicionais com passaportes, valores, celulares e câmeras. Representou um duro golpe para os orgulhosos portenhos, ao ver Buenos Aires sair da posição de uma das metrópoles mais seguras do mundo e entrar na lista das cidades inseguras aos visitantes – ao lado de outras, como Paris, Roma, Rio e São Paulo.
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Mas este não é o fim dos encantamentos de Buenos Aires. Mesmo com a crescente criminalidade e violência, se tomar as cautelas que se adota em qualquer grande metrópole, o viajante vai desfrutar de um charme quase inesgotável. Incomodado com a violência na cidade, o jornalista portenho Walter Maldonado divulgou uma lista negra de lugares e situações:
• O estádio do Boca Juniors e a Calle Caminito estão em todos os roteiros turísticos. Um golpe está sendo praticado contra os que circulam a pé – simpáticos e solícitos pibes que se oferecem para sacar fotos e, em segundos, somem com a câmera ou iPhone dos turistas.
• San Telmo é um charme, com antiquários, dançarinos de rua e a concorrida feira da Plaza Dorrego. No entanto, é ponto preferido pelos carteiristas e arrebatadores, que cortam mochilas e bolsas sem que o incauto visitante perceba. Também é frequentado por táxis ilegais, sem taxímetro, que usam notas falsas de 100 pesos como troco.
• Antes raros nas ruas, os pedintes ou limosnas, são crianças que sabem identificar turistas à distância. Por perto, sempre há um malandro, pronto para dar o bote em mulheres desacompanhadas. Atualmente invadiram até áreas refinadas, como a Plaza San Martín e a Avenida Posadas.
• O turista, chinês ou brasileiro, adora passear pela Calle Florida, a calle de peatones que já viveu tempos de charme e elegância. No entanto, abandonada e sem fiscalização, se transformou no paraíso de vendedores de rua, na maioria bolivianos, com suas quinquilharias e bugigangas. As antigas confeitarias e lojas de luxo agora exibem jaquetas, bolsas e malas made in China.
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O jornalista sugere que existem alternativas, além de perigosas calles e plazas. Lembra que nos tradicionais cafés da cidade ainda sobrevivem o fausto e o charme dos velhos tempos. Os veteranos frequentadores do Café Tortoni muitas vezes nos proporcionam deliciosos diálogos em autêntico lunfardo, a gíria dos arrabaleros e malandros de outras eras. Como a que ele ouviu entre dois turfistas recém chegados do hipódromo de San Pelegrín:
“Ma, che, chabón, no sabés! Se afiambró la chata en la loma del orto y nos quedamos en bolas!”
Outra visita obrigatória é a Confitería Ideal, na Corrientes com Suipacha. Um dos mais assíduos era o poeta Borges, além de grandes figuras, como Maurice Chevallier, Totó, Vittorio Gassman e María Félix com seu Agustín Lara. As Palmeritas e as Bombas de Chocolate con Crema fazem parte da crônica gastronômica da cidade. Dizem que, em seu apogeu, a confeitaria tinha 50 padeiros e confeiteiros, trabalhando dia e noite para atender aos pedidos de seus refinados clientes, que incluiam o presidente Hipólito Yrigoyen e o general Juan Domingo Perón.
Ao turista que evita as obviedades e usa sua imaginação, Buenos Aires pode ser uma cidade das mais fascinantes, que um certo dia mereceu de Julio Cortázar a louvação:
“Me basta mirarte para saber que con vos me voy a empapar el alma.”


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