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Borgianas

“Siempre hay algo en Buenos Aires que me gusta. Me gusta tanto que no me gusta que le guste a otras personas. Es un …

Sem título“Siempre hay algo en Buenos Aires que me gusta.

Me gusta tanto que no me gusta que le guste a otras personas.

Es un amor así, celoso”.

Jorge Luis Borges.

Da janela do quarto de hotel, vejo o prédio onde ele viveu por mais de 40 anos. Naquele apartamento sombrio, Jorge Luis Borges ditou à sua mãe Os Conjurados, Outras Inquisições, O Informe de Brodie e O Aleph. Algum tempo mais tarde, mesmo tendo morado em outros endereços na Recoleta, gostava de dizer que sua verdadeira casa era o apartamento 6B da Calle Maipu, 994. Curiosamente, no local, não se vê uma placa mencionando o morador ilustre. Mas sua passagem está registrada em placas de latão naCalle Presidente Quintana e na Avenida Pueyrrydón.

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Flanar pela Buenos Aires borgiana é uma experiência emocionante, que também pode ser frustrante. A cidade não é mais a mesma que despertou paixões e que inspirou o poeta cego. Ainda mais, Buenos Aires negou a Borges uma derradeira homenagem – a de ser sepultado no mausoléu de mármore negro da família, no mítico cemitério de La Recoleta. Ele vagava pelas alamedas, dizendo estar de visita à “recatada morte portenha”, se referindo aos grandes nomes da História da Argentina que ali repousam. Mas o destino caprichoso lhe reservara uma sepultura a milhares  de quilômetros de distância, em Genéve, na Suiça.

Passando por La Recoleta, os passos nos levam a Palermo, onde encontramos a casa onde ele morou até os 13 anos, quando viajou para a Europa. Ali, na Calle Serrano, 2135,passou os anos mais felizes da vida, especialmente na biblioteca de seu pai. Sobre a casa, ele confessa:

“De hecho, a veces pienso que nunca he dejado. Todavía puedo verla “.

Mais adiante, na esquina da Calle Guatemala, existe o local onde Borges imaginou ter ocorrido a fundação espiritual de Buenos Aires, que dizia ser tão eterna como a água e o ar:

” A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires:?La juzgo tan eterna como el agua y como el aire.

***

A Palermo que conhecemos hoje, repleta de charmosas butiques e  restaurantes de moda, pouco guarda dos tempos de Borges adolescente. Era apenas um arrabalde semi-rural, com figuras    que apareceriam em seus relatos: jogadores de cartas, bandidos, músicos marginais e gauchos foragidos, cuja honra era vinculada à coragem física, como nas sagas antigas. Foi neste barrio que ele conheceu os tangueros e milongueros, que desfilam na geografia sentimental borgiana:

” Lo cierto es que mil hombres y otros mil arribaron

por un mar que tenía cinco lunas de anchura

y aún estaba poblado de sirenas y endriagos

y de piedras imanes que enloquecen la brújula.

Prendieron unos ranchos trémulos en la costa,

durmieron extrañados. Dicen que en el Riachuelo,

pero son embelecos fraguados en la Boca.

Fue una manzana entera y en mi barrio: en Palermo “.

Ir em busca da Buenos Aires de Borges é como tentar ler um palimpsesto, para usar uma imagem do próprio poeta. Os jovens escritores e artistas que frequentam os bares e cafés devem saber  mais de Paul Auster e Martin Amis do que Borges.

Também não é fácil encontrar os cafés e bares que ele costumava frequentar. Muitos fecharam ou não existem mais, como o famoso La Perla, no bairro do Once. Outros resistem, como o Almacén el Preferido, numa esquina de Palermo, em um prédio de 1885, que Borges descreveu como um “reduto de pensamentos”.

No clássico Café Richmond, na Calle Florida, 468, nos deparamos com vestígios dos anos 1920, quando Borges era editor da revista literária Martin Fierro. Ele e seu círculo de amigos escritores estavam sempre por lá, ou então no Gran Café Tortoni, na Avenida de Mayo, que deixou de ser local de encontro de intelectuais para virar atração turística. Até uma figura de cera do poeta foi colocada em uma mesa, ao lado de Carlos Gardel. Borges com certeza  odiaria a instalação, mas as pessoas adoram fotografá-la.

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Este sumário roteiro pode ser encerrado com a procura de um   prédio na Avenida Garay, próximo à Plaza Constitución. Em O Aleph, o poeta localiza ali um certo porão, onde existe um “místico ponto no espaço que contém todos os outros pontos do Universo”. Mais borgiano do que isto, impossível.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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