Meu pai e minha avó materna gostavam de bater-boca. O indesejável, mas necessário convívio sob o mesmo teto ajudava a ampliar as divergências. Nunca saberei se por ideologia verdadeira – pouco provável –, se por ideologia de ocasião, ou se por mera implicância – mais provável – meu pai odiava Leonel Brizola e minha avó adorava. Quando pequeno assisti a animadas refregas, e nunca soube que partido deveria tomar. Meu pai era um profissional etílico dos ofícios etílicos e minha avó estava sempre sóbria, mas eu não sabia, e ainda hoje não sei, qual das condições é capaz de dar ou tirar a razão de alguém.
Na juventude comecei a admirar Brizola, mas também jamais saberei se pela natural tendência adolescente para o proibido, e na época Brizola ainda era bem proibido no Brasil, ou se apenas queria ficar ao lado da avó. Já adulto, ou achava que era, cheguei a ter uma ligeira briga com meu pai por uma tola questão supostamente ideológica. Na verdade, nada havia de ideológico naquele papo de dois homens levemente embriagados. Eu, recém-formado em jornalismo, era lógico que defendesse um ex-exilado que acaba de retornar nos braços do povo. Ele tendia a defender posições mais conservadoras, embora o fizesse apenas por instinto.
Os anos passaram, e não precisei ver meus cabelos branquearem para começar a achar que o tom do Engenheiro, como Brizola gostava de ser chamado, desafinara de modo irreversível entre uma campanha presidencial e outra, entre uma paranóia e outra, embora algumas fossem justificáveis. Já não o levava tão a sério havia alguns anos, mas respeitava sua biografia. Ninguém que lidera uma campanha de resistência a um golpe militar, passa anos no exílio e exerce três mandatos de governador em dois Estados importantes como o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro pode ser considerado coadjuvante. Lamentei que tivesse virado um. Mas ainda gostava dos eventuais cutucões que um de nossos últimos caudilhos desferia contra qualquer governo, incluindo o atual.
Mudei algumas vezes de opinião a respeito dele, sem traumas, porque coerência é virtude de birrentos e parados no tempo. Creio que muita gente fez o mesmo. O que poucos conseguiram foi permanecer indiferente em relação a ele. Para o bem e para o mal, Brizola fez história, agitou, incomodou. Sua morte torna o Brasil politicamente mais pobre.
*Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É Diretor de Redação da revista Forbes Brasil e escreve semanalmente neste site.

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