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Buscando perdidos

“Preciso viajar de volta ao encontro do que

guardei no mais profundo de mim”.

James Joyce.

 

Quando eu perdia um de meus brinquedos, minha mãe tentava ajudar, dizendo que eu devia apelar para o santo das causas perdidas. Fiz como ela mandou, mas o meu carrinho vermelho não voltou. Então fui até meu Tio Armando:

” – Tio, aonde estão os brinquedos que perdi?”.

A resposta era sempre a mesma:

         ” – Teus perdidos não estão perdidos, eles foram para o limbo das coisas”.

E acresentava uma frase que guardei por muito tempo:

” Quando ficamos velhos, encontramos o que perdemos na infância…”.

***

Escritores e poetas escreveram sobre a permanente e inútil obsessão de voltar no calendário para recuperar o que perdemos. Os filósofos dizem que deixar o tempo presente para buscar o tempo perdido pode ser inútil e frustrante. É comum nos afeiçoarmos a objetos, roupas e objetos do cotidiano. Em criança são brinquedos que ganhamos no Natal e tantas outras quinquilharias, cujo imutável destino é serem perdidas. Depois, a tendência é dirigirmos afeto aos brinquedos de adultos – uma bela jóia, uma peça de vestuário, uma bicicleta, um carro.                                                         

Para Marcel Proust, o escritor do tempo perdido, temos a compulsão de conservar um acervo de desaparecimentos. Mais do que coisas materiais, são cenários esquecidos ou personagens, parte de nossas fantasias e pesadelos.        

***

No outro dia, encontro um antigo vizinho de bairro em Porto Alegre. Conversa vai, conversa vem, tentamos trocar lembranças daqueles velhos tempos. Sem pensar, falei nos jacarandás floridos de Novembro e na torre da igreja do Divino, iluminada nas festas com lâmpadas coloridas. 

Mas o ex-vizinho tinha outras lembranças, totalmente desconhecidas para mim – o perfume que Dona Berta usava aos domingos e os olhos azuis da Maria Lúcia, que morava ao lado, na casa 307…

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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