
“Que pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar”.
Mario Quintana.
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O portão do velho colégio está aberta e não vejo o porteiro. Sem pensar muito, percorro corredores vazios, movido mais por instinto do que por curiosidade. As salas de aulas desertas se parecem com as dos meus tempos no Rosário, os bancos de carvalho polidos por cotovelos dos milhares de alunos que por ali passaram. Devo me livrar destas velhas lembranças, mas então, do fundo do corredor chega um canto grave e profundo, quase um lamento.
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Já aconteceu antes – como em um sonho, volto ao bairro onde fui menino. Depois de tanto tempo, ainda deve haver vida nas casas de porta-e-janela. Subo a ladeira dos grandes jacarandás até a praça forrada de folhas de Outono. Ali, em algum lugar, em um tempo futuro, o poeta entoará versos à sua namorada distante. Que nunca serão alcançados, varridos pelo primeiro vento de Inverno.
A paisagem muda, se renova, mas os sons e ruidos continuam – um gemido do violino do músico de rua, que teimava em acordar as manhãs de domingo e fazendo reviver emoções esquecidas. A rua, o bairro, a cidade mudou, os amigos foram morar em outra cidade, mas ainda continuo em procura de um sobrado branco com venezianas verdes, que estavam sempre fechadas. É uma visita há muito adiada a um amigo neligenciado que muito gostaria de rever.
Ao final de uma rua sem saida, um último casarão pode ser o que procuro. Bato à porta, uma, duas vezes, mas ninguém atende, a casa parece deserta, talvez abandonada. Volto rua acima, com o peso de uma busca frustrada e sem nenhum sentido. Os poetas entendem bem disso e nos ajudam a entender o que se passa na alma das pessoas. Como a poetisa Clarice Lispector, que sabia o que dizer quando escreveu –
“ Muitas vezes tenho vontade de encontrar não sei o quê.
E nem sei onde. Para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi.”
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