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Cada um se despede como consegue

Março de 1957 Esqueci o dia que, pela primeira vez, pisei no antigo Aeroporto Salgado Filho, passei de táxi pela escultura de Caringi, “O …

Março de 1957

Esqueci o dia que, pela primeira vez, pisei no antigo Aeroporto Salgado Filho, passei de táxi pela escultura de Caringi, “O Laçador”, cujo modelo foi o tradicionalista Paixão Côrtes, estranhei o excesso de azul e vermelho nas fachadas dos bares da Avenida Farrapos e hospedei-me no Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mario Quintana.

A fatalidade não permitiu que eu conhecesse Salgado Filho, primeiro ministro da Aviação do Brasil, morto num desastre aéreo em 1950.

A fortuna fez-me conhecer o escultor Antônio Caringi, fazer camaradagem com o Paixão e ficar amigo do Mario Quintana.

Minha curiosidade descobriu que o Comendador Heitor Pires, engarrafador da Pepsi no Rio Grande do Sul, pintava com as cores da marca, gratuitamente, os estabelecimentos que solicitassem o serviço. Esse “gratuitamente” era relativo, quem preferisse Coca-Cola que fosse refrigerar-se em outros locais.

Fernando Peixoto, 20 anos de idade, do Teatro Universitário, a quem o destino já encaminhava para as artes cênicas e que eu conhecera meses antes, no Rio, era colunista da área e foi, portanto, o primeiro jornalista do Rio Grande que conheci.

Talvez eu ainda vivesse nos pagos, não fosse a “Redentora”.

Preferi fugir para não ser morto ou – pelo menos – torturado. A polícia me odiava e, para alegria minha, com toneladas de razão.

Bem, não dá mais para não entrar no assunto. Léo Schlafman, José Monserrat Filho e Fausto Wolff foram os três primeiros jornalistas que conheci já em Porto Alegre. Por coincidência, os três vieram para o Rio, aqui ficaram e aqui convivemos.

Fausto, por causa da “Redentora”, não teve que fugir, mas por justificada prudência, auto-exilou-se na Europa onde, por 10 anos, lecionou literatura na Itália e depois na Dinamarca.

Há mais de 30 anos, visitei-o em Roma, numa rua quase ao lado da Fonte de Trevi. Depois que voltou ao Brasil, retomamos o diálogo no Antonio”s onde alguém inventou que ele deveria visitar a filha em Copenhague. Numa operação “mata-saudades”, a 100 dólares per capita, o Fausto foi, voltou, mandou brasa (expressão da “Jovem Guarda”) e não parou mais de escrever “livros, livros a mancheias”.

Quando escrevi “Antonio”s, caleidoscópio de um bar”, convoquei alguns freqüentadores amigos como colaboradores, entre eles o escritor Antônio Torres e o Fausto.

Até sua morte, semana retrasada, nos últimos anos encontrei-o pouco, mas de vez em quando nos falávamos pelo telefone e eu lia diariamente sua crônica no Jornal do Brasil que, mesmo doente, ele conseguia segurar a barra. No jornal, inclusive, era o recordista em receber cartas. Ele, por vezes, mandava-me, por e-mail, comentários à minha crônica aqui em Coletiva. 

Confesso que está difícil falar da ausência desse que certa vez, ao me encontrar na noite do Rio, ao saber que eu estava hospedado num hotel, exigiu que eu me hospedasse em sua casa até minha volta para Porto Alegre. Lembro-me que em Santos, 1959, num festival de teatro promovido por Paschoal Carlos Magno, eu, quebrando um galho para o meu amigo Ruggero Jacobbi, entrei como ator em “Egmont”, de Goethe, montagem da Escola de Teatro da Universidade do Rio Grande. Um dos intérpretes era o aluno Fausto Wolff que, por ser muito alto, achou inviável aquela carreira. 

Outra vez, ao se vangloriar de um concurso de consumo de chope que ganhara, eu não perdoei e disse: covardia, com quase 2 metros de altura e essa incipiente barriga, se você não ganhasse seria vexame.

Quando eu me sentir mais distante da ida do Fausto, vou contar duas hilariantes historinhas com ele, contadas por ele mesmo, para mim, no Antonio´s.

Hoje fica esta crônica descosida, mas deixo como brinde a colaboração do Fausto que publiquei no nosso livro.

Inté.


MAS COMO EU IA DIZENDO…
Fausto Wolff

Sempre gostei do Antonio”s, apesar da permanente implicância com o apóstrofo alienígena. Às vezes gostei menos, outras mais, mas nunca cheguei a desgostar completamente. Tem o espaço certo e o número de mesas exato para quem entende de bar e de teatro. A acústica é perfeita para manter ou revelar segredos. Em matéria de namoradas, a luz permite o quase impermissível. O uísque é honesto e as doses generosas para os conhecidos. Os bêbados são tratados com carinho pelos garçons iberonordestinos – todos com mais de dez anos de casa. Além disso, a comida é bem melhor que a servida nas mesas de 99% da população do país.

Freqüento o Antonio”s desde a fundação. No princípio, o bom Manolo nem era intelectual e a grã-finada selvagem ainda não havia invadido o local pedindo scotch Fitzgerald ou steak ou poivre sem pimenta. Naquela época, eu costumava jantar algumas vezes por semana com Sérgio Porto, Marise Miranda Freitas, Millôr Fernandes, Lúcio Rangel, Gilda e Maneco Muller. O diploma não era obrigatório, e a maioria dos jornalistas era razoavelmente alfabetizada. Havia samba, noivado, algumas virgens; as infidelidades conjugais eram tratadas com extrema discrição, os artistas eram pobres mas talentosos, e ninguém queria “ocupar, de repente, o seu espaço a nível de …”

O AI-5 chegou e eu parti. Passei quase dez anos fora. Nas voltas ocasionais, passava no Antonio”s. Com um Werfremdungseffekt* debaixo do braço, pude notar o estrago que a ditadura fizera nos espíritos noturnos. O Antonio”s era a síntese do Brasil. As notícias chegavam ao bar antes de invadir as redações. Freqüentado, principalmente, pela esquerda, esta não tinha paz, pois a qualquer momento os javalis do poder e da ordem podiam adentrar com suas orelhas sem fundo e suas memórias de ferro. Nessas ocasiões, pude também notar que muitos amigos se comportavam como os porcos-espinhos de Edward Albee. Se antes do AI-5 – no verão – andavam livres, depois do AI-5 – no inverno –, refugiados em suas tocas (e o bar é o melhor refúgio), precisavam encontrar a distância certa para não morrerem de frio e nem se machucarem com os espinhos. Encontrei muita gente brigada por motivos que numa democracia seriam risíveis.

Numa das minhas voltas bissextas, me irritei tanto com alguns grã-finos que gozavam um rapaz que, de madrugada, vendia o jornal do Exército da Salvação que comecei a berrar: “Esse exército vocês gozam, mas do outro se borram de medo, não é?” Mas, enfim, esta nota não é para falar dos meus baixos, e sim dos altos do bar. Com o tempo, a grã-finada neanderthaliana foi procurar a sua turma, os intelectuais encontraram a distância média e, eventualmente, ainda se pode descobrir uma barbada antes de ir aumentar a ala dos otários no Jockey Club. Ainda é o melhor bar da cidade. A minha turma que tinha entre 30 e 55 anos hoje tem entre 50 e 75, mas pouca gente nota, pois a ditadura não foi muito pródiga em revelar novos talentos. Somos todos meninos prodígios com mais de meio século nas costas. Os porres, como os fígados, não são mais os mesmos, mas as mulheres continuam elegantes e tortuosamente incompreensíveis.

Eu já estava fora do Brasil há cinco anos quando Jeffrey Gates, um produtor teatral americano, perguntou por mim ao Chiquinho, no bar do Antonio”s. E o barman: “Hoje ele ainda não apareceu, mas güenta aí que pode ser que daqui a pouco ele pinte”. É isso aí: no Rio de Janeiro, o único lugar do país onde se compreende que a cultura é uma arma de defesa pessoal, se alguém quiser encontrar alguém e este alguém estiver vivo, basta dar plantão no Antonio”s que, cedo ou tarde, alguém aparece. Zelito pede um outro uísque pro Miltinho e pendura.

*palavra criada por Brecht como explicação para o seu método de distanciamento, ou seja, comportar-se sem envolver-se com o acontecimento. No caso, Fausto usou-a como um “olhar de estrangeiro” ou “olhar de um estranho”. (M.A.)

Autor

Mario de Almeida

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