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Cai a cortina

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Nunca diga tudo o que sabe, nem

mesmo à sua mulher”.

 

                                                                      Hercule Poirot.

Não é qualquer personagem de ficção que, ao morrer, ganha obituário no The New York Times com direito a foto na primeira página. Mas esta improvável situação aconteceu em agosto de 1975, quando da publicação de “Cai o Pano”, a última aventura de Hercule Poirot, o detetive criado por Agatha Christie, que por estas e outras, foi chamada de “Dama do Crime”.

Os biógrafos de Agatha Christie contam que ela escreveu duas novelas para serem publicadas após sua morte, pois queria dar um fim digno para Hercule Poirot e Miss Marple.

O desaparecimento de Poirot foi tão marcante e significativo para a multidão de leitores de romances policiais que o New York Times publicou seu obituário como se tratasse da morte de um herói de carne e osso.

O que parece confirmar a teoria que a realidade muitas vezes pode ser mais interessante do que a ficção. Quando sentiu que a morte demorava a chegar, Agatha Christie concluiu que não conseguiria mais escrever e liberou as duas últimas novelas para publicação. Ela ainda estava viva quando saiu Cai o pano, enquanto Um crime adormecido, o último caso de Miss Marple, só foi publicado um ano após sua morte.

***

A inglesa Agatha Christie é um caso singular na história da literatura popular. Suas obras venderam quatro bilhões de exemplares, só perdendo para a Bíblia e William Shakespeare. O último caso de Hercule Poirot não é a novela mais famosa da escritora – posição certamente ocupada por O Caso dos Dez Negrinhos, Convite para a Morte ou As Dez Figuras Negras. Mas a derradeira aventura do detetive belga é uma das melhores e mais bem elaboradas tramas da “Dama do Crime”.

Nela, Arthur Hastings é convocado por Poirot para retornar à casa de campo Styles, onde ocorreu o histórico O misterioso caso de Styles, o primeiro livro publicado por Agatha Christie.

Lá, o primeiro choque quando o capitão Hastings encontra Poirot com a saúde abalada e preso a uma cadeira de rodas. Sem poder se movimentar e com problemas no coração, o detetive reclama da qualidade da comida e afirma que estão por acontecer cinco crimes e que o futuro assassino é um dos hóspedes. No entanto, se recusa a revelar quem é o futuro assassino e instiga o amigo a usar suas células cinzentas e descobra quais serão as futuras vítimas.

Em 1975 deve ter sido um verdadeiro impacto para os leitores de Agatha Christie ver Hercule Poirot em cadeira de rodas e fisicamente incapacitado. Mas a essência do personagem continua, pois ele mesmo garante que seu brilhante cérebro ainda funciona como antes.

É aí que aparece a genialidade de Agatha Christie – Hastings não é nem um pouco dedutivo e acredita demais nas pessoas. Pelo olhar dele, não temos uma visão do cenário criminoso. A escritora manipula informações em um jogo de gato-e-rato fazendo com que Hasting chegue às suas próprias deduções a partir do que lhe diz Poirot.

Ao longo de Cai o pano, Agatha Christie monta o que ficou plasmado com a estrutura clássica da trama policial, seguida mais tarde por mestres do gênero, como George Simenon e Alfred Hitchcock – induzir ou iludir o leitor/espectador em suas próprias conclusões sobre quem seria o criminoso.

E, como pontificava o padre Brown, o detetive criado por G.K. Chesterton, o assassino não é um assassino em si, mas uma pessoa comum que sabe usar as palavras e aproveitar as oportunidades:

” Afinal, qualquer pessoa tem potencial

para ser um assassino, basta ser

estimulado da maneira correta”.

***

O significado maior desta cortina final na obra de Agatha Christie vai além de uma trama bem urdida e envolvente. Com um golpe de mestre, ela faz Hercule Poirot deslindar uma série de crimes misteriosos mesmo depois de morto.

***  

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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