
Como é que eu poderei saber alguma coisa
a respeito do que teria sido se nunca foi?”
Alvaro de Campos.
Com alguns poucos versos, o poeta português sugere repensar na vida que passou – e também na vida que deixamos de ter. Ele evoca um crepúsculo – aquela hora do dia que sugere momentos de reflexão – revivendo o outono das folhas que passam do amarelo ao vermelho – antes de colorir as ruas de nossas infâncias. E lembra sua partida para a viagem que não fez:
” Foi em um crepúsculo de vago outono
que eu parti para uma viagem que nunca fiz”.
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Não foi apenas o heterônimo de Fernando Pessoa o único a evocar o que poderíamos ter feito – e escolhemos por não o fazer. Usando a versão Bernardo Soares, o poeta lamenta não ter se casado com uma rapariga loura, mas deixa a pergunta:
” Mas como é que eu sei se teria sido feliz?”
Não somos diferentes do poeta, pois guardamos em segredo muitas perguntas sobre tudo aquilo que não fizemos. Ou dos caminhos que deixamos de seguir. Um poema clássico da literatura inglesa, escrito em 1915 por Robert Lee Frost, bem define esta sensação:
“A estrada que não percorremos”.
É um convite para olhar sobre a vida presente e refletir sobre decisões passadas. Lembra que somos obrigados a escolher um caminho, mesmo sabendo que nossa escolha poderá fechar outras portas. Pois não nos é dado viver vidas divergentes e ao mesmo tempo, continuar como um ser humano singular.
O mesmo dilema de escolher um caminho, consciente ou por impulso era um dilema para antigos viajantes que chegavam a um ponto da jornada onde caminhos se cruzam. Já existia a crença que era um lugar sagrado, onde se podia consultar divindades para conhecer o caminho a seguir.
Hoje em dia não encontramos deuses à nossa espera nas escruzilhadas, mas obeliscos, menires, altares, pilhas de pedras ou oferendas religiosas para lembrar das escolhas que devemos enfrentar.
Uma lenda da Espanha do século XIV conta do artifício usado pelo bispo Juan de Sanclemente para evitar que os corsários de Francis Drake chegassem à Santiago de Campostela. Ele escondeu o corpo do Apóstolo Tiago e mandou trocar os sinais dos caminhos que levavam ao santuário. O artifício funcionou e os piratas nunca chegaram à Compostela. Mas os peregrinos continuaram chegando, mesmo seguindo os sinais trocados.
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