
“Existe apenas uma jornada – caminhar
para dentro de si mesmo”.
Rainer Maria Rilke.
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O novo pároco era visto com certa desconfiança pelo povo da vila. Ele bem que se esforçava, batizando crianças que choravam sem parar e ouvindo sem queixas as intermináveis confissões de Dona Laurinda, a católica mais fervorosa do lugar. Mas é preciso conhecer que o Padre Antão Tinha esquisitices difíceis de entender.Andava com uma batina suja, cheia de pingos e passava o dia caminhando pelos campos.
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Bem cedo da manhã, quando ele saía da igreja,sempre havia alguém à sua espera, disposto a puxar assunto:
“ – Bom Dia, padre Antão, quais são as novidades?”.
Mas ele, que não sabia de novidade nenhuma, respondia com um convite:
“ – Bom Dia.Tudo bem no céu e na terra. Venha, vamos caminhar e conversar…”.
No início,as pessoas não aceitavam e voltavam para a praça, esperando o italiano Luigi abrir o boteco. E comentavam que não entendiam porque o pároco,ao invés de atender no confessionário e rezar as ladainhas, saía a caminhar sem destino, usando botas tão sujas como a batina e se apoiando em velho cajado de angico. No entanto, padre Antão não fazia aquilo por capricho, mas por acreditar que perambular por matos e campos,admirando os pássaros no céu e os bichos do mato era uma maneira de louvar a Deus. Ainda poupava de pregar sermões e aplicar penitências.
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Recolhido em seu quarto nos fundos da igreja, o novo pátio lembrava o tempo quando um seminarista inquieto e cheio de sonhos acordava com a luz do sol para contar aos peregrinos que seguiam pela trilha entre campos de trigo e se perdia nas montanhas ao longe. Secretamente, ele sentia inveja da fé daqueles homens, que vinham de lugares distantes,sempre carregando pesadas mochilas.Ele os via chegar, cansados e famintos.Tomavam a sopa dos monges e depois dormiam o sono dos justos em um simples colchão de palha. E antes do sol sair, já estavam de volta ao caminho, sem sentir os pés feridos.E quando lhes perguntava o que esperavam encontrar no final da jornada, recebia apenas sorrisos de complacência.
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A resposta talvez estivesse no pequeno ladrilho esmaltado que lera no caminho de volta para casa:
“O andarilho caminha sem destino, movido pelo prazer de procurar. O caminhante conhece seus caminhos e sabe o que vai encontrar”.
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