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Caminhos não-percorridos

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Existe apenas uma jornada – caminhar

para dentro de si mesmo”.

Rainer Maria Rilke.

***

O novo pároco era visto com certa desconfiança pelo povo da vila. Ele bem que se esforçava, batizando crianças que choravam sem parar e ouvindo sem queixas as intermináveis confissões de Dona Laurinda, a católica mais fervorosa do lugar. Mas é preciso conhecer que o Padre Antão Tinha esquisitices difíceis de entender.Andava com uma batina suja, cheia de pingos e passava o dia caminhando pelos campos.

***

Bem cedo da manhã, quando ele saía da igreja,sempre havia alguém à sua espera, disposto a puxar assunto: 

“ – Bom Dia, padre Antão, quais são as novidades?”.

Mas ele, que não sabia de novidade nenhuma, respondia com  um convite:

“ – Bom Dia.Tudo bem no céu e na terra. Venha, vamos caminhar e conversar…”.

No início,as pessoas não aceitavam e voltavam para a praça, esperando o italiano Luigi abrir o boteco. E comentavam que não entendiam porque o pároco,ao invés de atender no confessionário e rezar as ladainhas, saía a caminhar sem destino, usando botas tão sujas como a batina e se apoiando em velho cajado de angico. No entanto, padre Antão não fazia aquilo por capricho, mas por acreditar que perambular por matos e campos,admirando os pássaros no céu e os bichos do mato era uma maneira de louvar a Deus. Ainda poupava de pregar sermões e aplicar penitências.

***

Recolhido em seu quarto nos fundos da igreja, o novo pátio lembrava o tempo quando um seminarista inquieto e cheio de sonhos acordava com a luz do sol para contar aos peregrinos que seguiam pela trilha entre campos de trigo e se perdia nas montanhas ao longe. Secretamente, ele sentia inveja da fé daqueles homens, que vinham de lugares distantes,sempre carregando pesadas mochilas.Ele os via chegar, cansados e famintos.Tomavam a sopa dos monges e depois dormiam o sono dos justos em um simples colchão de palha. E antes do sol sair, já estavam de volta ao caminho, sem sentir os pés feridos.E quando lhes perguntava o que esperavam encontrar no final da jornada, recebia apenas sorrisos de complacência.

*** 

A resposta talvez estivesse no pequeno ladrilho esmaltado que lera no caminho de volta para casa:

“O andarilho caminha sem destino, movido pelo prazer de procurar. O caminhante conhece seus caminhos e sabe o que vai encontrar”.

***  

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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