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Cantilena da Filosofia

Fu Lana não existe. Não comprou com antecedência um passaporte para filosofar. Duas mil pessoas vão pensar diferente ao ouvir escritores e filósofos convidados. …

Fu Lana não existe. Não comprou com antecedência um passaporte para filosofar. Duas mil pessoas vão pensar diferente ao ouvir escritores e filósofos convidados. Fu Lana, não.

A sensação de pavor começou a bater quando anunciaram que os ingressos estavam esgotados. Besteira. Sempre sobra algum. Ela entraria na fila de espera. Óbvio. Deixou passar e estourou a lista de espera. Ela estava de fora, mesmo.

Na noite da primeira palestra, saiu pela cidade chuvosa. A pé. Parou na porta do Salão de Atos, cantou o porteiro. Ficou igual a um cambista ao contrário, comprando algum improvável sobressalente. Queria filosofar. Em grupo. Não muito longe dali, a turba dos caras in desdenhava a programação. Não passa de um monte de burgueses falando difícil. E todo mundo vai. Fu Lana pagou a cerveja e começou a querer pensar assim. É, é filosofia de burguês. Nada a ver. Mas ia ficando triste, acabrunhada. Por mais que quisesse esquecer, estaria perdendo todos aqueles raciocínios. Vários em uma só noite.

Saiu novamente sem rumo. A chuva apertava e ela só conseguia se comparar aos mendigos e pedintes, por não estar lá, e por não poder estar lá durante TODAS as terças-feiras especiais de cada mês por um ano inteiro. Teria de encontrar um jeito, de encontrar magicamente um passaporte vago.

Entrou em uma livraria. Aproveitaria para se distrair e tentar vender uns livrinhos. Claro que, mais para a frente (ela sempre deixava tudo para fazer mais para a frente), compraria o livro sobre as palestras, que aliás já estava até à venda, mas não seria a mesma coisa. As pessoas ao falarem sobre suas idéias são muito mais criativas e se fazem entender melhor ao vivo do que em um livro, ainda mais tendo sido escrito antes do fato consumado. As propostas de debate seriam feitas no livro, mas o pensamento é vivo, e as pessoas poderiam até mudar de idéia ao filosofar. E ia ela, tropeçando nas próprias palavras.

Imaginava-se lá… durante o ano inteiro, em todas aquelas terças. Sua semana agora passará de segunda para quarta. No dia faltante, ela vai tomar uma bolinha azul para não lembrar que é out.

Desligou-se. Cruzou com umas amigas descoladas, tranqüilas. Iam pegar um cineminha faceiro, bem felizes. Como poderiam? Eram independentes.

Fu Lana choramingava em suas tranças, em suas saias compridas de crepe e em suas sandálias de couro que não acrescentaram nada de básico à sua existência. Nem quando o padrão era usar sapatos de bicos finos. E sentiu-se ainda mais infeliz. Em minutos, passou a ser out e carente ao pensar em mais de dois mil afortunados que estariam alimentando a mente e exercitando o poder da filosofia.

Queria trocar de ares. Entrou em outra livraria. Atrás do balcão, uma mulher praguejava. Batia com as coisas, empurrava o teclado. Fu Lana perguntou por um de seus autores, disfarçando seu real interesse. Temos, mas está em falta, foi resposta a qual ela está sempre acostumada. Ofereceu-se para repor a obra e a mulher fuzilou-a com os olhos. O escritório abre amanhã às 10h. São nove horas da noite. Está terminando, pensou Fu Lana e comentou em voz alta: as palestras estão no fim. A moça ouviu e completou: sim, aquelas maravilhosas palestras que eu estou perdendo por estar atrás deste balcão.

Fu Lana pensou estar delirando. Ela também queria ir, é claro! E continuou resmungando, a mal-humorada: pior é que eu tenho o famoso passaporte. A voz de Fu Lana saiu doce, como se quisesse roubar de uma criança: se você quiser, eu compro seu passaporte. Impossível, foi a resposta da orgulhosa. Ele é pessoal e intransferível. Pessoal, intransferível e inútil, pensou Fu Lana, pois a dona não planejou sua ausência ao trabalho para usufruí-lo. Diacho. Que trama!

Fu Lana se largou porta afora, pelas calçadas molhadas sentindo-se inexistente, nula, sem alma sequer. Nada iria completar aquele vazio. E os que viriam todas as terças-feiras daquele ano. Ao menos a balconista poderia inventar uma gripe no mês que vem. Enquanto Fu Lana, por sua vez, continuaria fingindo-se de morta.

Isso é o que causa um evento bem planejado e trabalhado tanto tempo na mídia. Torna-se um produto irresistível e insubstituível. Toma os contornos de terapia. Antes fosse em um estádio, roía-se a nossa pobre e desorganizada heroína.

Autor

Clo Barcellos

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