Quando me mudei para a Cidade Baixa, em agosto de 2019, embora estivesse muito inclinada a me apaixonar pelo local que me acolheria, pensei que jamais iria me desligar totalmente do Bom Fim. Afinal, entre idas e vindas (com a família, no final da faculdade e início da carreira profissional; com o companheiro, no começo do relacionamento; com a mãe após a separação e com a filha adolescente) foram mais de 30 anos de vida no Bom Fim. Nos primeiros dois anos de Cidade Baixa, eu até dizia que eu havia saído do Bom Fim, mas ele não havia saído de mim. Pois hoje, mais de seis anos depois, posso afirmar que sou quase uma cidadã nativa da Cidade Baixa e que o Bom Fim saiu de mim.
De tanto caminhar pelas ruas boêmias e movimentadas da Cidade Baixa, sei os seus recantos, encantos, seus nomes e apelidos. Conheço seus atalhos e até arrisco novos caminhos. Sei de suas cores. De tanto perambular pelos cafés da Cidade Baixa, sei os melhores horários, seus dias e horários de funcionamento. Conheço suas promoções. Sei de seus cheiros. De tanto passear pelo comércio, bares e similares da Cidade Baixa, sei as suas atrações, suas ofertas e seus funcionários. Sei de suas caras. De tanto cruzar as esquinas, becos, praças e cantos da Cidade Baixa, sei suas histórias e seus personagens. Conheço seus segredos. Sei de seus sons geniais.
Ao sair nas ruas, seja para levar o cachorro para passear ou efetuar alguma compra, muitas pessoas acenam, cumprimentam ou perguntam como estou. São pessoas que já se acostumaram a me ver caminhando pelas ruas do bairro e até sabem os meus horários de saída com o cão. Aliás, o neto canino Quincas Fernando é um dos responsáveis pelo meu processo intenso de socialização e entrosamento com a Cidade Baixa. Por ser um cachorro que precisa sair para gastar energia (o cão Dalai, que tive no Bom Fim e faleceu em 2017 não tinha essa necessidade), o Quincas termina me aproximando da vizinhança e é bem conhecido no bairro.
Um final de semana em que minha filha e sua esposa nos visitaram (Quincas estava no período de guarda compartilhada comigo), resolvemos ir até a esquina do meu apartamento para tomar um sorvete. Entrei na sorveteria, que fica em frente a uma farmácia que frequento muito (coisas da idade) e o Quincas ficou com Gabriela e Laura (filha e nora). Pois, durante a semana, uma funcionária da farmácia disse que iria ligar para o meu celular para avisar que o Quincas havia fugido ou estava perdido, porque viu o cão sem a minha presença e ficou preocupada. Coisas de quem mora na Cidade Baixa.
Na semana passada, como rotineiramente faço uma vez por semana, fui até a loteria do bairro ali na rua Lima e Silva apostar na sorte (esperança de um dia “enricar”). Assim que entrei na lotérica, minha sandália arrebentou. De um jeito que até para voltar em casa e trocar de sapato seria uma dura missão. Teria que ir arrastando a sandália com a tira arrebentada umas seis quadras ou caminhar de pé descalço naquele chão queimando. A atendente da lotérica, que me vê fazendo o mesmo joguinho há uns seis anos, prontamente me ofereceu o seu chinelo emprestado para que fosse possível eu ir em casa trocar de sapato. Coisas de quem mora na Cidade Baixa.
E assim, protagonizando rolês aleatórios, passeios necessários para o corpo não enferrujar, idas essenciais ao supermercado, farmácia e loteria, caminhadas obrigatórias com o cusco Quincas Fernando, cafés ou almoços com amigos e amigas pelo bairro, tornei-me totalmente acolhida e recebida pela vizinhança, trabalhadores, caminhantes e perambulantes da Cidade Baixa. Sei dos seus segredos, mitos e enredos. Sei dos seus frequentadores, funcionários, moradores sem teto. Sei dos seus desejos, sonhos e anseios. Sei dos seus espaços, cenários e limitações. Sei da sua geografia. Sei das caras, cores, tons e sons geniais da Cidade Baixa.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial