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Carissimo + Mon Cher

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Os dois se encontraram pela primeira vez no Festival de Cannes de 1960. O escritor Georges Simenon como presidente do júri e  o diretor Federico Fellini, como o grande premiado com a Palma de Ouro. Desde muito, ambos se correspondiam por telegramas  e cartas sobre temas como cinema, literatura e ‘choses de la vie’. 

Em Cannes, eles conversam longamente, trocam ideias e dividem confidências pessoais. O diálogo dos dois monstros sagrados é registrado e depois publicado pela revista L’Express, causando sensação em Paris e Roma.

***

O encontro aconteceu na esplanada do Hotel Carlton, em plena Croisette. Quem começa é Georges Simenon, ao admitir que nunca vai ao cinema. E para sua surpresa, Fellini comenta que também não assiste seus filmes:

“- Também não vou ao cinema. Quando termino de filmar, eu abandono de vez o filme e não quero revê-lo.”

E o diálogo segue:

G.S. – “Quando realmente começas a conviver com um novo filme?”

F.F. – “Começa quando publico um anúncio pedindo candidatos para atuar no filme. Não procuro por atores, simplesmente gente comum. Então, chega uma procissão de homens loucos, mulheres doidas, rostos estranhos, uns gordos, outros magros, de tudo… Não te passa o mesmo com as novelas?”

G.S. – “Sim, vou à procura de tipos humanos, mas quando começo uma novela, não sei como vai terminar nem o que fazer com os tipos. Os criadores como nós somos marcados pela infância. Também contigo, a infância te persegue?”

F.F. – “Sim, acho que a infância marca a todos, criadores ou não. Muitos pensam nesta relação como algo restritivo, quase que pejorativo. Enxergam o artista como uma criança grande, um homem crescido, incapaz de se desenvolver de forma plena.”

G.S. – “Mas no fundo, penso que se trata justamente do contrário.”

F.F.  – “Concordo. Mas é preciso entender que infância é uma possibilidade de manter equilíbrio entre o inconsciente e o consciente, entre a vida real e o mundo das recordações. Penso que a criança não faz distinções entre ela e sua realidade. Mas no fim, tudo acaba sendo destruído pela educação, escola, família e sociedade, que vão lhe impor a infernal rigidez do sistema e das referencias.”

E assim como a criança, que não sabe rechaçar isso, o artista precisa esquecer o que lhe ensinaram e tentar absorver a vida, mesmo que venha a ser vítima do inevitável conflito.”

(Curiosamente, Simenon não pergunta sobre La Dolce Vita, o grande premiado no festival, mas se diz fascinado por Casanova, de 1976).

G.S. – “Sempre que assisto Casanova fico pensando em Francisco Goya, que foi um poeta maldito, mas que também pintava a corte de forma puramente trágica. Teu filme mostra Veneza, as festas, os bailes, os banquetes e, como na obra de Goya, por detrás das risadas, nos deparamos com a morte, como um afresco das profundidades humanas.”

F.F. – “Tuas novelas também são um autêntico afresco.”

G.S. – “Não é verdade. Eu nunca consegui. Apenas montei um mosaico, com pequenas peças, umas ao lado das outras.”

F.F – “Mesmo assim, nas novelas te ocupas das desgraças do que chamas de ‘os homens pequenos’. Quanto a mim, tenho a sensação de apenas me interesso por mim mesmo.”

G.S. – “Fique tranquilo, porque comigo se passa exatamente o mesmo. É algo que me atormenta de uma forma incrível.”

G.S. – “Sabes o que Charlie Chaplin me disse um dia?”

F.F. – “Acho que sim, lembro que você escreveu: ‘Nem você nem eu somos completos neuróticos porque, quando nos sentimos demasiado angustiados, você escreve um livro e eu faço um filme. Mas não importa o que se faça, não encontramos a paz’.”

G.S. – “Chaplin estava certo, pois a paz não existe. É algo que nós inventamos.”

F.F – “Nós todos colecionamos fracassos. Tuas novelas contam histórias de fracasso. E minhas películas, não seriam também histórias de fracassos? Mesmo assim, quando terminamos um livro ou um filme, mesmo que terminem mal, sempre retiramos dali uma nova energia. Assim funciona a arte: é uma forma de transformar o fracasso em vitória, a tristeza em felicidade. A arte é um milagre.”

G.S. – “Vou fazer aqui uma confissão. Não tenho nenhum vício, mas sofro da necessidade urgente de me comunicar (…). Bem que gostaria de ter conhecido mais mulheres do que as muitas que conheci. De qualquer forma, por mais que busco um contato humano, nem sempre ele está lá. O que se encontra é apenas     um vazio.”

F.F. – “Fica evidente que não podemos ter o luxo de ser otimistas.”

G.S. – “Certo, como ser otimistas, se temos raízes fincadas neste mundo?”

F.F. – “Mas como escritor, não sentes a necessidade de construir algo importante, que seja permanente?”

G.S. – “Não, de forma alguma. Meu sonho é apenas morar em uma pequena cidade, em uma rua repleta de lojinhas e mercados. E escrever para sobreviver, vendo passar a vida debaixo de minha janela. Não sou ambicioso.”

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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