Não é incomum sair do banho, no meu horário habitual nos dias de semana, depois das 20h30min, e antes de entrar no quarto para me vestir e realizar uma sessão intensiva de cremes para atenuar as marcas da idade, ir até Gabriela na sala e quase perguntar: “filha, a vó ainda não me telefonou?”. A pergunta cala e fica atravessada na minha garganta. Evito expor minha filha a esta saudade escancarada que se hospedou em mim, há exatamente um ano, quando minha mãe Mirthô Peçanha Martins morreu. E por isso, ela está há 366 dias sem me telefonar. Não pergunta do serviço, dos cachorros, do preço nos supermercados, se estou tomando os remédios. Enfim, calou-se a sua voz.
Também é um ato falho quando a Gabriela chega da faculdade e relata com aquela paixão típica da ansiedade e vivacidade de seus 17 anos, que foi bem na prova, que irá se inscrever em um estágio ou que desafiou, com alguma provocação, um professor seu lá na Fabico, eu sugerir; “ai, liga para a casa da vó e conta que ela vai adorar”. Mas logo lembro que minha mãe não irá atender. E tranco a sugestão antes de transmitir uma tristeza para a minha filha. Há mais de 366 dias (se incluir na conta o seu período final de doença, em que estava muito debilitada e não se comunicava mais por telefone) que a minha mãe Mirthô Peçanha Martins não recebe notícias diretas da sua neta. Enfim, não escuta as novidades.
Embora o período de 12 meses possa parecer, dependendo da ocasião, uma eternidade, me pego, às vezes, ignorando que esse tempo passou. E fico planejando o final de semana na casa da mãe Mirthô, em Butiá, onde ela escolheu encerrar a sua vida. Mas ela não está mais lá. No shopping, quando caminho sem pressa nos sábados e domingos, imagino que ela vai usar o celular e falar daquele jeito alto que todos os outros por perto ouviam e me chamar para um cappuccino cremoso. Quando passo no café preferido dela, percorro com os olhos aflitos todas as mesas e Mirthô não está mais lá. Nem no super, nem no café, nem na casa em Butiá. Não está em todos os lugares. Há exatamente um ano.
Só que, apesar da ausência física e da saída de cena na hora exata em que começava a tornar-se dependente dos outros (e isto minha mãe não aceitaria), ela está mais presente do que nunca em tudo o que me ensinou no passado, no que conseguimos viver juntas no que foi o nosso presente e no que ela espera de mim no futuro que ainda tenho. Porque é dela que lembro perfeitamente quando preciso tomar uma decisão importante. Quando faço uma comida diferente da receita e o prato fica ruim. Quando me debulho em lágrimas ao ver uma propaganda de margarina e recordo dela dizendo: “deixa de ser manteiga derretida, vai ficar toda inchada”.
E, nos encontros de família, sempre fico com a certeza de que ela está por ali, em algum canto, a observar tudo e a pensar com os seus botões: “mas eu disse que seria assim, porque não ouviram os meus conselhos?” Ou quando vou falar para a Gabriela que se prepara para sair à noite, aquelas recomendações básicas que variam de geração para geração, mas que se mantém no conteúdo, tenho a nítida impressão de que minha mãe está sorrindo com um jeito muito debochado que era só seu, como a contextualizar: “isto, fala também para ela não tomar refrigerante sem ver onde ele foi aberto”.
Minha mãe me deixou, no dia 4 de julho de 2011, um pouco antes das 16h30min e levou partes que não consigo mais repor e que me fazem falta no dia a dia. Mas, creio eu, é impossível sair de uma perda destas 100% composta. Este desapego físico tem o seu preço. Em compensação, apesar da saudade, me dá forças todo o dia para recomeçar. Ainda que, em determinadas ocasiões, a dor da saudade seja quase sufocante. Porque cada novo dia, quando desperto, sei que carrego comigo ainda o seu coração a bater no meu.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial