Até pagodeiros e lolitas cantantes aos quais a natureza subtraiu alguns neurônios sabem que a taxa de juros praticada atualmente no Brasil é recessiva. Não é preciso ser nenhum Zé de Alencar, caso isso seja um predicado, para perceber que um índice de 26% estrangula a atividade produtiva, amplia o drama do desemprego e nos expulsa da fila dos pretendentes a ingressar no clube dos países desenvolvidos. Tampouco é complicado chegar-se à conclusão de que o presidente Lula tem se revelado conservador a ponto de constranger a madre superiora e escandalizar companheiros como a senadora Heloisa Helena e outros menos votados, porta-vozes do radicalismo de ocasião.
A insistência da imprensa na abordagem do assunto pode, no entanto, passar por suas próprias dificuldades. A imprensa faz tipo. O assunto foi levantado de maneira oportuna e brilhante por Alberto Dines, cujas credenciais são conhecidas de todos os jornalistas deste país. Aqueles aos quais é necessário apresentá-lo podem buscar outro meio de ganhar a vida. Não creio que seja o caso de nenhum de meus leitores. Em artigo publicado no site do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br) Dines afirma que “as relações governo-imprensa estão azedando. A questão não é política, é econômica. Esta é a sua gravidade. A indústria da comunicação está passando pela sua mais grave crise financeira e repassa o seu pessimismo para o noticiário. Não é chantagem, talvez nem seja cobrança. Mas o azedume ostensivo afeta o teor das informações, cria climas artificiais e torna a opinião pública vulnerável a orquestrações de toda espécie.”
Dines recorda que José Dirceu, o braço direito de Lula, manifestou preocupação com a crise econômica da imprensa durante a campanha eleitoral. O governo até quer ajudar, mas como socorrer os barões da mídia e escapar ao bombardeio dos porta-vozes da fome nacional? Trata-se de um jogo bem mais complicado do que o futebolzinho de fim de semana do primeiro escalão, cujas piores conseqüências são luxações nos ombros. Na tentativa de escapar ao sufoco financeiro, no qual os juros são um mero componente, e a falta de competência e criatividade o ingrediente essencial, demite-se cada vez mais, lembra Dines, na busca da velha utopia patronal da redação sem jornalistas. Sempre há verbas para a contratação de consultores, gênios administrativos que levam cachês de milhares de dólares para apresentar relatórios decididamente inúteis. Ou úteis, uma vez que invariavelmente apontam a necessidade de enxugamento, o que faz os donos das empresas locupletarem-se com sua própria genialidade de terem pensado nisso antes.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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