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Censura pela liberdade

Toda a proposta de censura tem como suporte uma melhoria da vida em comum. Proibir símbolos religiosos nas escolas, por exemplo, foi uma forma …

Toda a proposta de censura tem como suporte uma melhoria da vida em comum. Proibir símbolos religiosos nas escolas, por exemplo, foi uma forma de impedir que as guerras, promovidas pelo fanatismo das crenças, invadissem o ambiente educativo. Luc Ferry propôs essa medida na França, como ministro da Educação. Estrelas de David ou véus islâmicos ficavam fora do ambiente infanto-juvenil. Isto é proibir para manter a paz, em nome da co-existência, em nome do coletivo. No entanto, a individualidade, neste caso, está seriamente ameaçada.

Alguns propuseram, anteriormente, a adoção da leitura da Bíblia nas escolas e em ambientes oficiais, em nome do bem coletivo. Indivíduos não-identificados com essa medida imediatamente foram contra e, mobilizados, derrubaram a proposta. Várias outras tentativas de imposição de idéias religiosas já foram propostas e derrubadas. Tudo para tornar o homem igual pelo bem comum.

A proposta de eliminar os símbolos religiosos das escolas é igualmente humanitária em sua origem, mas para sua execução, foi necessária a coação do indivíduo que, por definição, deve ser único e livre na escolha de suas manifestações.

A batalha entre liberdade individual e direito coletivo é a mais antiga das cantilenas. É o início dos dilemas, afinal, é a imposição de valores que nos leva à guerra. Por que é tão difícil um ambiente propício à diferença, à aceitação do outro, sem que haja uma só lei imposta de crença universal? A disputa pela teoria da origem dos tempos é o que provoca a cisão entre os homens e é o que deflagra a guerra. A disputa incessante entre Deuses diferentes pela paternidade das leis que regem as tribos é o que transforma a guerra, hoje, na única verdade universal.

Na história, não deve haver outra ferramenta mais utilizada pela esquerda e pela direita, pelo clero e entre laicos, para convencer sobre a manutenção da paz, do que, contraditoriamente, a censura. Este instrumento sempre é utilizado em nome do bem comum. Também a violência deve compor o rol dos recursos freqüentemente utilizados com este fim, completando a galeria de impossíveis paradoxos. Como pode ser possível?

Quando há um tutor – e este é o poder do Estado ou do Pai – este pretende apenas proteger. E cria regras para proteger. Você, por exemplo, que usa a estrela de David não pode arrebentar a cara de seu colega que defende a religião islâmica. A existência da guerra, no entanto, torna hipócrita qualquer tentativa de pacificação da sociedade civil que envolva questões morais e religiosas. Na verdade, a própria religião deveria ser proibida (que os céus me protejam de tal blasfêmia) para que a paz seja mantida e para que haja liberdade de pensamento entre os povos. É a censura surgindo novamente como solução para a paz.

Iríamos, neste caso, começar a discutir se devemos venerar o dinheiro, a mente, o corpo ou as idéias e começaríamos a lutar novamente. A intolerância deve estar no dna da índole humana.

Tentativas de censura, de imposição de regras seletivas, em nome do bem comum,  não funcionam. O mundo encontra-se neste caos, entre guerras movidas pela religião e quem não tem fé acaba dominado por quem a exerce. A luta dos materialistas foi derrotada no século passado. Chegou a chance da filosofia (malditas sejam as terças-feiras).

Pausa para a ficção, para o ridículo das hipóteses. Vamos imaginar que mulheres e homens estejam agindo de forma tão competitiva e prejudicial que as diferenças entre os sexos devam ser eliminadas, em nome do bem comum. Surgiriam então aqueles uniformes idênticos, e como o próprio nome aponta, desidentitários, que deixam o indivíduo sem traços de superioridade de um sobre o outro (quem lembra dos uniformes escolares que tinham a motivação não discriminar pelo poder aquisitivo?).

Este é o nosso admirável mundo velho, onde o todo quer dominar o uno, enquanto ensinar tolerância é muito mais difícil  do que difundir o sectarismo, este de fácil e absoluta aceitação social.

Somente hoje seria possível que sejamos nós a praga social rotulada por respeitados religiosos dando um nó na nossa cabeça. É como apanhar por fazer o bem, ser condenado por amar. Tudo pelo bem comum.

Autor

Clo Barcellos

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