Ando reorganizando minha biblioteca, após alguns anos de desleixo a que nem mesmo a boa memória consegue sobreviver. Não consigo reaver livros importantes. Acabo convencido de que sou um tolo diplomado com PhD, pois tolo é quem empresta livros, mais tolo, quem os devolve. Faço as duas coisas.
Entre os livros perdidos está um volume com discursos dos agraciados com o Prêmio Nobel na cerimônia de outorga. Dele gostaria de resgatar o do inglês Bertrand Russel (Literatura, 1950), que cito de cabeça, por isso sem as aspas: todos amamos quem odeia nossos inimigos. Não tivéssemos inimigos, não teríamos muitas razões para amar.
Essas palavras me vêm à memória diante do incidente diplomático – mais um – provocado pelo presidente da Venezuela, Hugo Chavez, desta vez com o rei Juan Carlos da Espanha.
Chavez é obsessivo na busca de um Panteon “crioullo”, e “crioullo” aqui significa “caboclo”, “nativo”, nada a ver com o nosso “crioulo” ou o francês “crioulle” dos haitianos, ambos significando “negro”. É trágico, mas depois que o nazista Goebbels transformou a semântica em arma mortal, a toda hora nos vemos obrigados a esclarecer o que estamos dizendo. Contrasta com a faca levada a um churrasco sem necessidade de explicações. Sabidamente, é para cortar carne, não para apunhalar o vizinho de mesa. É menos perigosa que o discurso depois do segundo copo de vinho.
O primeiro equívoco de Chavez é a eternidade do nosso tempo. Ela não passa de 15 minutos, segundo o profeta Andy Warhol, do qual sobrou apenas a frase. E não adianta somar frases porque todas podem ser proferidas em 15 segundos e uma eternidade seria consumida até chegarmos aos 15 minutos.
O segundo equívoco de Chavez é não perceber que Bertrand Russel provavelmente se referia à extrema-esquerda, que se aliara as nazistas tanto em 1933, para derrubar os sociais-democratas na Alemanha, como em 1939, para partilhar a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial.
A frase seria mais correta se não generalizasse. Ao longo da História, pode-se identificar quem não foi assim, e com toda a certeza o rei Juan Carlos da Espanha está nessa relação. O fato de discordar das idéias do ex-primeiro-ministro José Maria Aznar não o torna seu inimigo e não serve de pretexto para desqualificá-lo pessoalmente, aliás cacoete muito apreciado por tipos como Chavez, Fidel Castro e seus adoradores. O rei protestou diante da falta de respeito contra um ex-chefe de Estado, legitimamente eleito, legitimamente derrotado em eleições livres, e que não tentou perpetuar-se no poder.
Aliás, é o que também marca a diferença entre Juan Carlos e Hugo Chavez. O rei recebeu sua coroa de um regime totalitário que poderia ter prorrogado por longos anos, caso tivesse vontade. Preferiu a democracia e consagrou-se como estadista.
Hugo Chavez percorre o caminho contrário. Eleito em urnas legítimas, por sua pregação contra a pobreza e a má distribuição de renda na Venezuela, tenta converter uma democracia em ditadura, sem nada inovar ou acrescentar aos velhos e carcomidos modelos latino-americanos.
Faz muito barulho, agride outros estadistas, no que se aproxima de Adolf Hitler com seu trágico Reich de mil anos. Levou o primeiro troco do rei Juan Carlos. Se não aprender a lição, terá de arcar com o resto. Então saberá que os mil anos de Hitler, em tempo de História, foram bem mais curtos do que os 15 minutos de Warhol.

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