
“Dia de chuva é dia de reler
antigas cartas de amor.
E esquecer do resto…”.
Mario Quintana.
Nunca entendi como aqueles rudes homens do campo de meu tempo eram capazes de ler as nuvens no céu e de entender os sinais da natureza. Eram gente boa, pessoas generosas, de “poucas letras” como se dizia, mas sabiam coisas que eu não encontrava nos livros.
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Uma certa vez, manhã de céu claro, vi meu avô Patricio descer pela alameda dos eucaliptos que levavam até a porteira. Passava a mão no tronco rugoso das árvores, o olhar perdido nas nuvens que corriam no céu. Foi até o fim da estrada, voltando com jeito preocupado. Tirou o lenço encarnado do bolso, limpou a testa e demandou ao negro Edu:
“- Vai chegar um temporal…”.
Foi o que bastou para provocar um corre-corre do povo da fazenda. Peões tocavam os cavalos para as cocheiras, as tias fechando as janelas e chamando a gurizada para dentro de casa. Eu chego perto da avó Ana Augusta, que espiava tudo pela janela da cozinha:
” – Como o avô sabe que vai chover?”.
Ela nem se deu ao trabalho de responder, me servindo leite fresco com broa de milho recém-saída do forno. Foi quando estalou uma trovoada de tinir os vidros e vidraças. E minha avó, com um jeito maternal e ao mesmo tempo zombeteiro:
“- Se estás morrendo de medo dos trovões, é bom rezar para Santa Bárbara e São Jerônimo”.
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Na porta da frente, o Coronel tomava mate, olhando as várzeas se encher com o águaceiro. Ele devia ter advinhado o que eu queria perguntar, pois foi logo falando:
” – A vida campeira é assim…a gente precisa entender o que diz a natureza, atentando ao redor – quando os cupins criam asas e voam, vai ter chuva. E cuidar do ninho do João-de-Barro – se a porta está virada para o sol, não chove. Virada para o lado sul, vem chuva…”.
Faz uma pausa descansada, enche a cuia e passa a lembrar dos segredos que ouviu dos índios Tapes que moravam nos areiais da Lagoa. Mostra as nuvens acima do Cerro Pelado:
“- A indiada dizia que nuvens escuras é sinal de chuva forte. Como a enxurrada de 42 que carregou vacas e terneiros para o arroio Camaquam. Mas nuvens de algodão? Pode plantar que a colheita vai ser boa…”.
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Muito tempo depois, se ouvia o som das trovoadas sobre o Guaiba e em seguida a chuvarada de Inverno desabava em Porto Alegre. A torrente descia pela ladeira, alagando ruas e inundado as casas térreas. Me deixando com saudades do avô Patrício e de suas nuvens brancas como algodão.
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