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Chove, chuva!

“Dia de chuva é dia de reler 

antigas cartas de amor.

E esquecer do resto…”.

Mario Quintana.

Nunca entendi como aqueles rudes homens do campo de meu tempo eram capazes de ler as nuvens no céu e de entender os sinais da natureza. Eram gente boa, pessoas generosas, de “poucas letras” como se dizia, mas sabiam coisas que eu não encontrava nos livros.

***

Uma certa vez, manhã de céu claro, vi meu avô Patricio descer pela alameda dos eucaliptos que levavam até a porteira. Passava a mão no tronco rugoso das árvores, o olhar perdido nas nuvens que corriam no céu. Foi até    o fim da estrada, voltando com jeito preocupado. Tirou    o lenço encarnado do bolso, limpou a testa e demandou ao negro Edu:

“- Vai chegar um temporal…”.

Foi o que bastou para provocar um corre-corre do povo da fazenda. Peões tocavam os cavalos para as cocheiras, as tias fechando as janelas e chamando a gurizada para dentro de casa. Eu chego perto da avó Ana Augusta, que espiava tudo pela janela da cozinha:

” – Como o avô sabe que vai chover?”.

Ela nem se deu ao trabalho de responder, me servindo leite fresco com broa de milho recém-saída do forno. Foi quando estalou  uma trovoada de tinir os vidros e vidraças. E minha avó, com um jeito maternal e ao mesmo tempo zombeteiro:

“- Se estás morrendo de medo dos trovões, é bom rezar para Santa Bárbara e São Jerônimo”.

***

Na porta da frente, o Coronel tomava mate, olhando as várzeas se encher com o águaceiro. Ele devia ter advinhado o que eu queria perguntar, pois foi logo falando:

” – A vida campeira é assim…a gente precisa entender o que diz a natureza, atentando ao redor – quando os cupins criam asas e voam, vai ter chuva. E cuidar do ninho do João-de-Barro – se a porta está virada para o sol, não chove. Virada para o lado sul, vem chuva…”.

Faz uma pausa descansada, enche a cuia e passa a lembrar dos segredos que ouviu dos índios Tapes que moravam nos areiais  da Lagoa. Mostra as nuvens acima do Cerro Pelado:

“- A indiada dizia que nuvens escuras é sinal de chuva forte. Como a enxurrada de 42 que carregou vacas e terneiros para o arroio Camaquam. Mas nuvens de algodão? Pode plantar que a colheita vai ser boa…”.

***

Muito tempo depois, se ouvia o som das trovoadas sobre o Guaiba e em seguida a chuvarada de Inverno desabava em Porto Alegre. A torrente descia pela ladeira, alagando ruas e inundado as casas térreas. Me deixando com saudades do avô Patrício e de suas nuvens brancas como algodão. 

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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