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Chuvas

Chove na cidade. Há três dias que chove na cidade. Uma cidade solar que, debaixo da chuva contínua, perde a identidade urbana e sonega …

Chove na cidade.

Há três dias que chove na cidade.

Uma cidade solar que, debaixo da chuva contínua, perde a identidade urbana e sonega a face do humano.

Aquela chuva, achava, mascarava o real, o cotidiano se transformava numa farsa mal representada.

Sabia, porém, que a farsa era tão real quanto o solar de quase sempre.

Chuva, cinza, tudo que nebuloso eram elementos de angústia.

Lembrou-se do tempo, tempos de chumbo, a política lhe exilara em terras não escolhidas.

Tempos compulsórios nos quais jamais lhe aconteceria algo.

Não existe vida sem raízes, sentira-se condenado, mesmo sem data para a execução.

Haviam sepultado o seu passado.

Seu presente era nada e nem projetava futuro algum.

Agora, de volta às terras de sol, foi surpreendido por chuvas e pelas antigas lembranças.

Sacudiu a cabeça, enfiou as mãos nos bolsos das calças e, cabeça ao vento, foi passear na chuva.

Pisou firme, sabia que retomara os passos do futuro e o sol voltaria.

Sorriu.

A chuva estava lavando parte do seu passado.

Autor

Mario de Almeida

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