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Ciao, Bella!

Há alguns anos, muitas pessoas ainda acreditavam no mito de que se come mal em Londres. Lembro das expressões de incredulidade dos amigos, quando …

Há alguns anos, muitas pessoas ainda acreditavam no mito de que se come mal em Londres. Lembro das expressões de incredulidade dos amigos, quando eu elogiava o Shepherd’s Pie ou o Cottage Pie, pratos camponeses servidos nos pubs ingleses. Desde então, muita água passou sob as pontes do Tâmisa e não mais precisamos ir a Paris ou a Roma para comer como gente grande. Prova disso são as três estrelas do Guia Michelin que adornam o Claridge’s, de Gordon Ramsay, e o Dorchester, de Alain Ducasse.

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São incontáveis os bons restaurantes de Londres que não têm estrelas na porta. O italiano Ciao Bella é um deles – instalado em uma tranquila rua de Bloomsbury, funciona como um saboroso testemunho da pluraridade globalizada da gastronomia. Diante do Spaghetti al Cartoccio ou da Melanzane alla Pugliese e ouvindo o signore Lorenzo repassar pedidos em voz alta para a cozinha, ficamos em dúvida se estamos em Londres ou no Trastevere de Roma.

“Ora – diria um romano – “ainda falta muito para dizer que estamos em uma genuína trattoria…”.

Nem tanto – nas noites de segundas-feiras, quando muitos pubs e restaurantes londrinos fecham as portas, o Ciao Bella convoca seu violonista. Sem maiores cerimônias, ele simplesmente se apossa de um violão da decoração e começa a tocar a tarantella.

Em minutos, um dos irmãos de Lorenzo – tenor nas horas vagas -limpa as mãos no avental e se reúne ao violonista para entoar as inevitáveis canzonettas napolitanas.

A casa não demora a encher, com moradores da vizinhança, atraídos pela música e pelos habituées, vindos de outros lados da cidade. Mas não apenas a música faz sucesso por ali. A clássica mamma de avental quadriculado dos spots de TV dos anos 60 aprovaria com entusiasmo as imensas porções de pasta, que satisfazem duas pessoas ou mais. E as filas nas segundas-feiras? Fáceis de explicar, pois a casa não cobra pela música ao vivo e os cativos ainda ganham um desconto de 10%. Um dos sobrinhos de Lorenzo sugere com entusiasmo um vinho regional do Piemonte. Mas antes de abrir a garrafa, avisa:

“- Ma nessuno sconto sul vino, signore”.  

Os vinhos italianos têm preços razoáveis: um Barbera D’Alba DOC por 35 euros e um Perdera Argiolas, da Sardenha, por 25 euros. Digo que os preços são menores do que nos supermercados do Brasil. Mas Lorenzo não entende meu italiano e conclui que estou reclamando dos preços. Resultado – ganho uma segunda garrafa, por conta da casa.                         

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É divertido investigar o cardápio em lugares instigantes como o Ciao Bella. Assim, descubro que existe um segundo cardápio, com ênfase na cozinha regional. O signore Lorenzo chega com o Menu Gastronômico – um completo mapa culinário da Itália, com pratos típicos de cada região. Para o viajante, um desafio à paciência e à temperança.

Os anti pasti são do Friuli-Venezia-Giulia: queijo Montasio, presunto San Danieli, fatias de Speck do Alto Adige e as pitina, pequenas almôndegas de carne defumada.

Para o primo piatto, peixes com pasta da região do Veneto, risi e bisi e uma Soppressa Vientina, que nem imagino qual seja. Outra opção vem da região lombarda: uma tentadora Cotoletta alla milanese, seguida de Bresaola Valtellina, temperada com mostarda de Cremona.

O secondo piatto vem do Piemonte, com a bagna calda e variações de Agnolotti e Taglierini. Do Lazio, as clássicas massas nas versões Alla Carbonara ou All’amatriciana. Fazemos nossas escolhas, declinando do convite de Lorenzo para continuar a viagem para além da Liguria e Emilia-Romagna.

Mas as sobremesas reacendem o pecado da gula: da Toscana, o Panforte e os Ricciarelli, feitos com amêndoas, mel e ovos e os Cavallucci, biscoitos de frutas cristalizadas. E, do sul da Itália, a Pastiera di Grana, feita com ricota fresca, os Sfogliatelle, embebidos em rum, além dos afamados Canolli sicilianos.

O toque final da hospitalidade do Ciao Bella chega na forma de um forte espresso, acompanhado da perfumada Sambuca, que Lorenzo serve, garantindo que é seu ammazzacaffè preferido. 

Fico em dúvida do que se trata, mas bebo assim mesmo. 

É perfeito.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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