
“Nossa cidade é um lugar que se ama mesmo sem nunca ter estado lá”.
James Joyce.
***
Em Montevideu se comenta que o poeta Eduardo Galeano, quase no final de seus dias, cumpria o ritual diário de caminhar pelas ruas da Ciudad Vieja. E assim descrevia suas andanças:
“Quando caminho pela cidade onde nasci, palavras nascem dentro de mim e vão formando estórias”.
Escritores e poetas não escondem nostalgia quando falam das cidades onde nasceram e onde um dia foram crianças. Deve existir um impalpável e misterioso cordão umbilical que nos une ao nosso berço natal.
James Joyce foi um dos que exploraram com intensidade este sentimento, quando se referia à sua Dublin. Em uma de suas numerosas frases lapidares vaticinou:
“Nossa jornada só vai terminar quando chegarmos onde tudo começou…”.
A minha Porto Alegre natal pouco carrega em comum com a Dublin joyceana. Ela mais se assemelha em alma e paisagens com a Montevidéu de Eduardo Galeano. Há quem diga que as duas cidades são irmãs. Nosso cais do porto, que margeia e bordeja o Rio Guaiba parece replicar as ramblas que abraçam a capital dos orientais, só faltando o perfume da maresia oceânica.
O Porto dos Casais tem seu guardião silencioso – no horizonte, o Morro da Polícia parece replicar o El Cerro, que guarda o porto de Montevidéu. E mais, se nas águas profundas do Rio de La Plata dorme a carcaça do assombrado cruzador alemão, Admiral Graf Spee, as águas da Lagoa dos Patos tem sua história de trágicos naufrágios, desde quando o veleiro Prince of Wales, encalhou no Albardão em 1861, provocando um sério conflito diplomático entre a Inglaterra e o Brasil de D. Pedro II.
***
As cidades que residem em nosso acervo sentimental possuem um acervo de lugares que pedem por revisita e dispara emoções esquecidas – um casario, uma alta torre de igreja ou uma praça coberta de flores. Nos finais de tarde, a luz outonal acende dourados nas torres da igreja de Nossa Senhora das Dores. É quando seus sinos repicam, convidando a seguir as pegadas dos que passaram por aqui, a caminho de esquecidas memórias e antigas lendas.
Na praça onde havia uma Alfândega, história e estórias se confundem com a vida da cidade. As floradas de Novembro de seus jacarandás foram cantados em prosa e verso por escritores e poetas. Em uma de suas alamedas cobertas de flores azuis, há um banco de pedra, onde o poeta recita versos louvando sua cidade de adoção:
“Olho o mapa da cidade
Como quem examina
A anatomia de um corpo.
Um suave mistério amoroso,
A cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)”.
Mário Quintana.
***


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial