Alguém está aí?
Eu já escrevi tantos textos por aqui e por ali e ainda sinto que se minha voz ecoa no vazio. Não culpo ninguém. Em uma economia em que somos peças de produção, somos mastigados pelo mito da produtividade, agora disfarçado de “vida equilibrada”, de “privilegiando minha saúde mental” ou “é preciso ter uma rotina em que você ache um tempo para você mesmo”, ser sua melhor versão virou a nova maneira de exploração.
É a cultura moldando quem somos antes mesmo de descobrirmos quem queremos ser. Como se a validade da nossa identidade viesse de fazer o que todos fazem. Não me levem a mal, eu sou uma pessoa neurodivergente e com transtorno de ansiedade generalizada e uma depressão teoricamente controlada. Meu “eu” se perdeu em meio a tantos diagnósticos, estressores ambientais e a própria neurofisiologia do meu corpo que a culpa é minha, também. Deve ser, né? Mas, pra alguém que conseguir ser funcional já é uma luta diária, enxergar o mundo num filtro de “só depende de mim” é quase massacrante.
Eu sei. Não preciso que me digam que sou inteligente. Da habilidade da minha escrita, de como eu tenho um pensamento-macro que poucos têm e como me dedico a certos aspectos da minha vida em certos tempos me tornando quase uma criança que guardou os brinquedos antes mesmo que a minha pedisse. Mas, a mãe nunca agradece e diz obrigado. E você dá mais de si e mais e mais e mais… Até perceber que você já está dando pedaços de si.
Você precisa ter sucesso no trabalho. Mas, não pode trabalhar demais. Precisa ter um tempo pra cuidar da sua saúde física e mental. Precisa ir aos seus médicos regularmente e manter uma rotina de skincare sempre no ponto. Mas, se você focar muito em suas coisas como pessoa em si ou como projetos realizados, vai parecer que você não está feliz com o que tem. Seja grato! Qual o seu problema, afinal? O que você quer? Você faz tantas coisas diferentes! Foque em uma e se decida. Entretanto, esteja aberto a novas possibilidades: flexibilidade é fundamental, dizem. Exercite isso e medite, talvez. Um incenso pela manhã? Yoga? Corrida? Faça exercícios que tenham comprovações cada vez mais sofisticadas de que o seu corpo (ou seria melhor usar o termo “saúde”) está em dia. Ganha quem conseguir provar mais, digo, fazer mais.
Mas, também, não se afasta dos amigos verdadeiros. Mande mensagem para os seus melhores, chame-os para um café. Mas, entenda que é melhor sempre privilegiar a rotina, o descansar de um dia de trabalho porque no outro dia haverá mais… Então se esforce pra resolver a equação! Quem quer manter amizades consegue. E esteja aberto a fazer mais amizades ou conhecer novas pessoas e pontos de vista. Não se isole em sua visão. Você precisa sair da bolha, tá? Mas também ter cuidado para nesse movimento não fazer você perder sua essência: o que faz você ser você. Você sabe o que faz você ser você, afinal. Né?
E, também, você precisa ser posicionado. Saber ser firme sem ser grosseiro. Objetivo depois de uma noite às claras trabalhando em algo que não vai ser usado. Mas, cuidado: não se posicione demais. Gente que mostra que entende assusta quem não sabe até que ponto entende. Eles armam barreiras pra se proteger da mudança: está dando certo até agora! Mas, também você não traz nada de novo, né? E se traz, quando é que vai implementar? E se implementar, quando vai fazer? Ah, e não esqueça de ter tato com quem está a sua volta. Seja politicamente delicado e entenda o outro lado e entenda que as pessoas precisam se aculturar. E que você precisa ter paciência e tempo para explicar. Mas, como dizem as frases do Instagram, não se demore com quem não olha pro mesmo caminho que você. É o que dizem.
E, ao final, pareça feliz, porque tristeza é tipo lepra. Doença contagiosa. Pode pegar se chegar muito perto dos outros. Soria. Sorria e sorria. E ache um tempo para achar motivos para isso. Enquanto isso, poste um vídeo nas redes sociais dizendo como é difícil ser você ou como você superou o quanto é difícil ser você. Mas, não seja fútil. E ajude os outros. E não esqueça da gratidão!
Quer saber? Esqueça tudo. É só uma ordem que você precisa seguir para viver: ser feliz. Porque todo mundo está. Não está?
Com alguma coisa que não sei nomear, Luan.


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