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Com “penso”

Chorar no cinema não chega a ser esporte. É legal, mas daí a procurar filmes que nos façam desabar é uma distância que Fu …

Chorar no cinema não chega a ser esporte. É legal, mas daí a procurar filmes que nos façam desabar é uma distância que Fu Lana não precisa percorrer.

Vamos ver o Escafandro?, perguntou ela animada aos amigos. Que nada, foi a resposta. De desgraça, chegam as poucas boas e muitas más notícias que lemos diariamente. E apenas metade da missa a gente conhece.

Provavelmente, eles falavam das denúncias de corrupção, que são diárias, faz anos. Uns entram na cadeia, saem outros; delegados pedem férias e são chamados de volta; casas são compradas e depois tem de ser explicadas. Um caos, a nossa realidade.

Por isso mesmo, argumentou Fu Lana. No cinema a gente esquece tudo isso e entra numa tragédia decente. Ok. Não foi o argumento brilhante que convenceu. Foi uma compra de duas bíblias para se livrar do vendedor.

Angústia. Como é que o diretor de fotografia e, em uma observação menos petulante, o câmera construíram aqueles pontos de vista? Embrulhados na situação de não poder enxergar direito e nem ser ouvidos, vamos ficando à mercê do caráter de quem nos percebe. Nós, todos da sala, fomos costurados sem poder dizer nada. E, apesar de nauseante, foi bom demais. Masoquismo autêntico.

Cinema é isso. Somos operados, remexidos e vasculhados por dentro e por fora. Passamos por sensações que nos fogem no cotidiano. Nos entregamos pelo preço de um ingresso.

O homem, em um escafandro, pode até respirar, mas não toca em nada, não enxerga direito e nem é alcançado. Uma ortofonista, profissão inimaginável até então para Fu Lana, combinou piscadelas com letras e a comunicação foi possível. O rapaz virou borboleta e passou a escrever melhor do que esta que se esforça inutilmente. E olha que Fu Lana conhece o teclado, o alfabeto e não tem sequer um cisco no olho. É um caso com muito “penso”, ou melhor com fino “sinto”.

Viver é uma loteria. E chover no molhado também é permitido, porém nada em arte se torna insuportável quando a intenção é honesta e o talento se alia ao trabalho especializado.

Ainda bem que as cenas se passam na França, porque um caso desses no Brasil iria gerar um filme do tipo horror/Stephen King: tira um olho e deixa ele mofando e sofrendo as maiores humilhações. Ele não fala mesmo. Nem sei se sente. Quem sabe morre e dá menos trabalho. 

A diferença não é apenas de “penso” do escritor, mas de toda a cultura de uma civilização. 

Autor

Clo Barcellos

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