De vez em quando, entre os intervalos dos noticiários, das leituras dos livros, das audições de músicas, da contemplação pela janela da sala de quem passa apressado ou das caminhadas esporádicas pelo bairro, tenho pensando cá com meus botões “como será o amanhã, responda quem puder, o que irá me acontecer, o meu destino será como Deus quiser”. Na adaptação do samba “O Amanhã”, lançado pela União da Ilha do Governador no carnaval de 1979, fico a imaginar como será a vida de todos e todas – pelo menos os mais próximos – depois que o isolamento imposto pela pandemia da Covid-19 findar.
Se o confinamento terminasse, por exemplo, nesta quarta-feira, 1° de setembro, em que completo os meus 535 dias no isolamento quase total (com pequenas e necessárias escapadas nos últimos dois meses), juro não fazer a mínima ideia de como iria retomar uma rotina um pouco diferente destes infinitos e tediosos períodos do distanciamento. Fechada num pequeno espaço de não mais do que 47 metros quadrados, sem ver parentes importantes e vindos ou não do interior, sem interagir presencialmente com amigos (as), sem visitar meu irmão, cunhada e afilhado em Butiá, no instante em que tudo liberar, o que vou priorizar?
Como administrar, a partir de então, as reuniões partidárias e dos movimentos feministas, sem saber em qual plataforma ela irá ocorrer? E como conseguir, em tempo recorde, emendar as reuniões, antes online, agora no presencial? Como entender que a rua, com o fim do isolamento, é uma alternativa novamente viável para caminhar sem rumo ou até mesmo passear olhando as vitrines expondo os lançamentos da nova coleção? E, conseguirei, entrar num supermercado para fazer as compras do mês? Saberei a localização dos produtos até então listados para que a minha filha fizesse tais compras para mim?
Penso nestas dificuldades de adaptação porque, nos meus 61 anos (confessei de novo a idade) jamais imaginei viver uma situação assim tão complicada, tão atípica, tão solitária e ao mesmo tempo exigindo do coletivo doses generosas de solidariedade. Quando tudo começou, no meu caso, em 16 de março de 2020, eu arriscava que o isolamento não ultrapassaria, no máximo, os 60 dias, que a preocupação da minha filha comigo (pela idade e por ter uma doença autoimune) era um tanto exagerada e que, em função da gravidade do momento, talvez o tal presidente do País tivesse uma atitude condizente.
Enfim, um dia teremos que recomeçar, retomar o cotidiano, reerguer as paredes, redesenhar a vida, encarar as pessoas nos olhos – mesmo que as máscaras ainda sejam necessárias por um tempo – e quem sabe, chorar coletivamente e em prantos, a morte de mais de 580 mil pessoas vítimas da Covid-19 no Brasil.


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